—Então em que ofendi eu os senhores condes?—perguntou Julião, surpreendido.

—Quero que todos os nossos operarios tenham uma irrepreensivel conduta religiosa, que cumpram fielmente todos os preceitos da egreja; do contrario, serão despedidos, e não poderão contar comnosco para coisa alguma. Diga-me uma coisa: costuma ouvir missa?

—Contando com a benevolencia de V. Ex.ª, atrevo-me a dizer que isto tem toda a aparencia de uma confissão, e desde já declaro que só a Deus é que me confesso. V. Ex.ª pergunta-me se vou á missa; mas eu pergunto, por minha vez: «Para que hei de assistir á missa, se não compreendo o que o padre diz?»

—Não estou para discussões: disseram-me que vocemecê era protestante, e eu não quero negocios com essa gente.

—Sou cristão, minha senhora.

—Nesse caso, não tenho nada a dizer. Mas que vem a ser isso de não entender a missa?

—E V. Ex.ª entende-a, porventura?

—Entendo.

—Pois pela minha parte, como desconheço a lingua de que se faz uso na missa, nada daquilo tem significação alguma. Peço licença para lhe observar uma coisa. S. Paulo, escrevendo aos Corintios, diz: «Dou graças a Deus, que falo todas as linguas que vós falaes, mas eu antes quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha».