—E que tenho eu com isso? Vá ter com os seus amigos protestantes que lhe paguem.
—Senhora—exclamou, indignado, Julião,—os protestantes, meus amigos, ou, para melhor dizer, meus amados irmãos, nada me devem; quem fez com que eu empregasse em materiaes o fruto dos meus labores foram os condes de X, que teem obrigação de me pagar.
—Pois bem—disse o conde,—paga-se-lhe tudo, para que se vá embora.
—Não—gritou a condessa,—não se lhe paga coisa alguma; se comprou material, não o comprasse. Ou renega a sua religião, ou põe-se já na rua.
—Renegar Cristo!—exclamou Julião;—não, senhora condessa, isso é que não. Cristo deu a Sua vida por mim, e não O vendo por um punhado de oiro. A Escritura fala dum Judas, não fala de dois. Fique com o dinheiro, e faça de conta que lho dei de presente.
—Não sei como me contenho—exclamou o conde;—se não fosse por sujar a mão, fazia calar essa boca. Ponham este homem lá fóra—ajuntou ele, chamando pelos creados.
—Não é necessario, que eu sei onde é a porta. Que Deus lhes perdôe o prejuizo que me causaram.
Julião retirou-se. O palacio dos condes era situado na Castelana, e o vidraceiro, assentando-se num banco que ficava á sombra duma arvore, tirou a sua Biblia da algibeira, e, enxugando algumas lagrimas rebeldes, leu estas consoladoras palavras: «Nenhum te poderá resistir todo o tempo que viveres: como fui com Moisés, assim serei comtigo; não te deixarei nem te desampararei». (Josué, 1:5).
Depois entrou em casa, e contou a sua mulher o que se havia passado.