«Cristo uma vez morreu pelos nossos pecados; o Justo pelos injustos, para nos oferecer a Deus (1.ª de Pedro 3:18).»
«E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como o Pontifice cada ano entra no santuario com o sangue alheio; doutra maneira lhe seria necessario padecer muitas vezes desde o principio do mundo, mas agora aparece uma só vez na consumação dos seculos, para destruição do pecado, oferecendo-se a si mesmo por vitima. Assim como está decretado aos homens que morram uma vez, e que depois disto se siga o juizo, assim tambem Cristo foi uma só vez imolado para esgotar os pecados de muitos; e a segunda aparecerá sem pecado aos que o esperam, para a salvação (Hebreus, 9:25—28).»
«Mas este, havendo oferecido uma só hostia pelos pecados, está sentado para sempre á dextra de Deus, esperando o que resta, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés» (Hebreus, 10:12 e 13).
Estes textos do Novo Testamento, que acabo de ler, demonstram claramente que a missa, ou, melhor, a pretenção de sacrificar a Cristo todos os dias, e em muitos logares ao mesmo tempo, é contraria á vontade de Deus, que quer um só sacrificio. Disto deduzo uma consequencia, e é a seguinte—que os anatemas de Roma são contra Deus.
Agora é claro que para haver sacrificio é necessario haver vitima, e desta aproveita-se a egreja romana por meio da sua transubstanciação, porém tenha V. em conta «que sem derramamento de sangue se não faz remissão». Ora, onde está na missa o derramamento de sangue? De que instrumentos cortantes se serve o sacerdote nesse sacrificio? Quem derrama ali o sangue? E que não digam os romanos que tudo ali se faz em figura e memoria, porque em tal caso cae sobre eles o anatema tridentino; é preciso crer, ainda que não se veja, que Cristo desce ás mãos do sacerdote, e que este O oferece em sacrificio ao Eterno. Ah! Roma faz muito bem em se servir, para representar a fé, duma matrona com os olhos vendados.
Compreendo a razão por que Roma não quer o livre exame, pois que odeia a luz! Pois bem, padre Francisco, o senhor é sacerdote romano, permita que lhe diga que está nas trevas; não está em Deus, «porque Deus é luz.»
O joven calou-se, e o sacerdote disse:
—Ainda que a minha alma receba uma dulcissima consolação, ainda que desejaria confessar-lhe tudo o que sinto, pode descançar. Porém, se não quer, continue.
—Não estou cançado—respondeu o joven, acrescentando:—Além disso, desejo terminar a questão que nos ocupa. Que Cristo, material ou corporalmente, está na missa, que a Sua presença é verdadeira e real, no dizer da egreja romana, não resta duvida, pois no canon I, sessão 13 do referido concilio de Trento, diz-se: «Qualquer que negar que no sacramento da Eucaristia se contém verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com Sua alma e divindade, e por consequencia Cristo todo, mas afirmar que está ali em simbolo ou figura, ou por Sua propria virtude, seja anatema.