Torno, pois, não já a dizer que Roma anatematiza o Deus que ela adora, senão que se opõe com seus decretos á vontade soberana de Deus. Como pode estar Cristo no sacramento, ou na missa, duma maneira corporal? A Escritura, em oposição a isto, diz:
«Pelo que, se ressuscitastes em Cristo, buscae as coisas que são de lá de cima, onde Cristo estará sentado á dextra de Deus» (Col., 3:1).
«Ao qual (Jesus) certamente é necessario que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, as quaes Deus falou por boca dos Seus santos profetas, desde o principio do mundo.» (Atos, 3:21).
«Mas Este (Jesus), havendo oferecido uma só hostia pelos pecados, está sentado para sempre á dextra de Deus.» (Hebreus, 10: 12).
Como, pois, se atrevem os senhores a sustentar que Cristo desce a este mundo, quando é preciso que esteja á dextra de Deus até que se cumpram todas as profecias? Como podem sacrificar ou renovar o sacrificio d’Aquele que com um só sacrificio fez perfeitos os que santificou?
Porém vou fazer-lhe uma pergunta, á qual, se responder satisfatoriamente, prometo crer, não digo na transubstanciação, mas em tudo o que de mim exija o infalivel romano. A pergunta é esta: Que Cristo é que Roma sacrifica—o glorificado dos céus ou o terreno do Golgota? O primeiro, atendendo ao que diz S. Paulo, «ha corpos celestes e corpos terrestres», é celestial, ou seja o Cristo glorificado; a esse tal é impossivel sacrificar, porque já está glorificado, e portanto, além da Sua natureza, que a isso se opõe, seria necessario fazer baixar um ser dum logar de gloria a um mundo de padecimentos e a sofrer dôres. Se me dizem que sacrificam o corpo de Cristo como está cá no mundo antes de ser glorificado, digo que não pode ser, porque não existe, e porque o Cristo que o sacerdote sacrifica não corresponde, nem em peso nem em tamanho, ao Cristo que nasceu em Betlehem. Que Cristo é glorificado, e que o Seu corpo é um corpo celestial, nós o sabemos, por aquilo que está escrito na primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15: 45-48, e ainda mais pela leitura de todo o capitulo em que se diz que os que habitam nos céus teem corpos celestiaes.
Depois duma breve pausa, o joven continuou:
—Se alguma crença eu tivesse ácerca da transubstanciação, bastar-me-hia, para abandonal-a, ter lido no missal romano as regras sobre os defeitos da missa, que V. conhecerá perfeitamente. Ha uma pagina de que eu me recordo muito bem, e que diz: «Se uma hostia consagrada chegar a desaparecer, por qualquer acidente, pelo vento, ou por milagre, ou fôr devorada por um animal, consagre-se então outra». Como é possivel que Aquele a quem os crentes obedecem, esteja exposto a ser levado pelo vento? Como dizer que um milagre pode fazer desaparecer outro milagre? Como dizer que Cristo está exposto a ser devorado pelos ratos, que se dão perfeitamente nos retabulos carunchosos das egrejas? Como sei que não ignora o que deverá fazer o sacerdote se uma mosca ou uma aranha cair no vinho consagrado, que deve ser bebido, se da parte do sacerdote não houver nauseas, não lho repetirei, porém, sim, direi alguma coisa da famosa regra que diz: «Se no inverno se gelar o sangue no calix, deve envolver-se este em panos quentes; se isto não fôr bastante, coloque-se dentro de agua quente perto do altar, até que se derreta o sangue, tendo o cuidado de que não entre agua no calix.»
Pode haver, meu amigo, maior cumulo de impiedades? O sangue de Cristo gelado! Então que Cristo é que sacrificam?