—Parece incrivel que os padres não nos ensinem coisas tão boas como as que Julião acaba de dizer-nos.

—Meu pae—disse Antonia,—desejo possuir um livro como o de Julião.

—Sim, minha filha, ámanhã mesmo o terás, se Julião me disser onde se vendem.

—E que lhe parece tudo isto?—perguntou a sr.ª Josefa a Brigida.

—Oh! parece-me que é muito bom—respondeu esta,—porém a mim não ha nada que me arranque ás minhas opiniões.

—Senhores—interrompeu Julião,—creio que incomodamos a enferma, e que devemos retirar-nos.

—Não—replicou vivamente Antonia,—a mim não me incomoda; pelo contrario, não sabe o bem que as suas palavras causaram á minha alma, e a paz que sinto; porém de que modo pedirei perdão ao Senhor para o obter? Sou uma pobre pecadora, que se encontra ás portas da morte.

—Visto que deseja falar, falemos. «Um homem teve dois filhos, e disse o mais moço deles a seu pae: Dá-me a parte da herança que me toca. E passados não muitos dias, depois de ter recebido a herança, partiu para uma terra muito distante, num paiz estranho.» Um pecado nunca vae só; sempre arrasta outro comsigo.

«O joven, ao ver-se em perfeita liberdade, e possuidor de grandes bens, gastou tudo o que seu pae havia ganho. Porém gastou-o em coisas santas? Em esmolas? Não; «dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.» Bem depressa o joven se viu reduzido á pobreza. Que fazer? Deus enviou áquele paiz uma grande fome, e o joven, só e pobre, teve que sofrer aquela praga até ao ponto de desejar as landes que comiam os porcos que ele guardava. Neste estado, entrando em si, veiu-lhe á imaginação a sua casa e o seu pae. «Quantos jornaleiros—disse ele—ha em casa de meu pae que teem pão em abundancia, e eu aqui pereço á fome!» Desta reflexão nasceu outra em sua alma. Quanto tenho pecado! Que fazer? «Levantar-me-hei, e irei buscar a meu pae, e dir-lhe-hei: Pae, pequei contra o céu e deante de ti: já não sou digno de que me chames teu filho; faze de mim como dum dos teus jornaleiros». Concedeu-lhe o pae o que ele pediu? Não, mil vezes não. O pae vê vir lá ao longe um homem, esfarrapado, coberto de pó. Alguns homens do povo passam junto dele, olham-no de alto a baixo, porém não o conhecem. Ah! os olhos dum pae vêem a uma grande distancia. O ancião reconhece naquele, que parecia um mendigo, seu filho, e corre ao seu encontro, abraça-o, e, quando lhe ouve a confissão que ele faz, reconhece o seu arrependimento, e não diz! «Trazei-lhe uma enxada ou uma pá», mas sim: «Tirae depressa o seu primeiro vestido e vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e uns sapatos nos seus pés; trazei tambem um vitelo bem gordo, e matae-o para comermos e para nos regalarmos.»