—O medico já lhe deu auctorização para se levantar? perguntou Fernando.

—Os medicos são uns ignorantes. Se seguisse os seus conselhos, ficaria ainda um mez na cama, mas tenho esperanças de me restabelecer d'outra maneira sem auxilio da medicina.

—Senhor Ernesto, disse o conde com voz carinhosa, ignoro o que tenciona fazer para se curar, mas reprovo que abandonasse a cama.

—O meu plano de vida é muito simples, senhor conde, reduz-se a ir viver no monte, a respirar o ar puro e livre do campo, longe da balburdia da cidade, do bulicio dos homens; é o remedio mais efficaz para os doentes do peito. Em outros tempos fui um enthusiastico amador da caça. Quando o governo me fez seu pensionista, quando parti para Roma, offereci os meus cães e as minhas espingardas e abandonei a minha distracção favorita. Em poucos dias adquirirei todos os apetrechos e partirei para os montes de Toledo onde conheço um caçador de profissão, viverei com elle, caçando umas vezes, pintando outras, e quem sabe se a vida semi-selvagem que vou emprehender me restabelecerá a saude.

O pintor procurava dissimular o cansaço que a conversação lhe causava.

O conde, que o conhecia, disse com commoção:

—Ernesto, offender-se-ha commigo se lhe falar com a franqueza de irmão?

—Pelo contrario, senhor conde, julgar-me-hei muito honrado.

—Pois bem, o senhor crê que essa viagem, essa vida semi-selvagem, como acaba de dizer, lhe será tão proveitosa, como diz?

—Sem perceber de medicina, comprehendo que a vida do campo é muito proveitosa aos doentes do peito.{126}