N'aquella mesma noite escreveu uma carta a Mauricio, caçador de profissão, que vivia nos montes de Toledo.
Tres dias depois, Mauricio respondeu a Ernesto, offerecendo-lhe a sua casa, participando-lhe que se casára, e que, por conseguinte, podia estar com alguma commodidade.
Ernesto fôra caçador n'outros tempos, antes de partir como pensionista para Roma. Era d'aquella epocha que conhecia Mauricio, com quem entrára em algumas caçadas.
Resolvido a emprehender a viagem, principiou a dispôr tudo, isto é, pôz n'um caixote alguns quadros, o cavallete, a caixa das tintas e os pinceis; n'outra metteu alguns livros de estudo e de recreio.
Só lhe faltavam os apetrechos de caça, quando uma manhã em que se dispunha a sahir para comprar todos esses artigos, viu entrar o mordomo do conde de Loreto, seguido de dois creados que traziam duas caixas e dois bellos cães inglezes, um Setter e outro Pointer.
O mordomo avançou com o seu costumado ar grave, e, entregando uma carta a Ernesto, disse-lhe:
—Meu amo, o senhor conde de Loreto, manda-me{133} entregar esta carta, estas caixas e estes cães, ao senhor, encarregando-me de lhe pedir o desculpe de não vir pessoalmente, mas é-lhe inteiramente impossivel.
A um signal do mordomo, os creados arriaram no chão as duas caixas e amarraram os cães ao pé de uma mesa.
—Creio que o senhor não deseja mais nada, ajuntou o mordomo, vendo que Ernesto guardava silencio.
—Diga ao senhor conde que lhe agradeço reconhecidissimo a offerta que se digna fazer-me, e que lhe falarei ou escreverei antes de partir.