—Dêmos tempo ao tempo que saberemos a verdade. Emfim, seja como fôr, Ernesto é bom rapaz e sinto-me satisfeito por vêl-o em minha casa.



Ernesto estava fechado no quarto. Seriam onze horas da noite. O luar entrava pela janella que se conservava aberta. A brisa nocturna levava até elle, de envolta com as suas invisiveis pregas, o perfume das silvestres plantas do monte.

Aos pés da cama, sobre duas pelles de carneiro, dormiam os dois cães que Ernesto baptisára com os nomes de Roma e Florença.

O pintor, sentado junto de uma mesa, tinha na sua frente uma garrafa de cognac e um copo.

Não illuminava o quarto outra luz senão a do astro da noite.{139}

De vez em quando Ernesto bebia um gole de cognac e levava a mão ao peito, respirando com difficuldade.

—Ah! Sim, sim, dizia, falando comsigo. A solidão dos montes, é o que me convêm, porque longe da importuna charlatanice dos homens poderei dedicar a ella todos os momentos da minha vida. Quizera apagar da minha alma a recordação d'aquellas noites de Florença e arrancar dos meus labios o beijo de fogo que me queima o coração. Mas é impossivel! Cada vez a amo mais. Que seja feliz já que eu o não posso ser!

Ernesto bebeu de um só trago o conteúdo que ainda tinha no copo e encheu-o novamente.