«Com o portador d'esta, caçador infatigavel e amigo leal, em casa de quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o primeiro javali que matámos e dois quadros sobre assumptos de caça, genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver forças para sustentar o pincel.
«Não marco preço aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje não preciso de dinheiro, mas avisál-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu banqueiro.{155}
«Para lhes provar que não os esqueço, desejava que me concedessem auctorização para fazer trez retratos de memoria, ainda que se admire ao vêl-os, o meu leal amigo D. Ventura.
«Deponha aos pés da senhora condessa os meus respeitos, dê um abraço em seu sogro e não esqueça que n'este deserto fica esperando occasião de lhe ser util
«o seu amigo e obrg.º
«Ernesto Alvarez.»
Amparo ouvira lêr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do fundo da alma a fórma delicada como estava escripta.
Só lhe prendeu a attenção a auctorização que pedia para pintar os tres retratos, entre os quaes devia figurar o seu.
—Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caçador.
—Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma cabeça de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.