—Não receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me no abysmo, previno-te de que na minha carteira acharás um testamento que te livra de toda a responsabilidade.
E continuou descendo.
Mauricio sustinha com trabalho os cães, olhando com admiração para Ernesto.
Não faltava valor ao caçador para descer por aquelle difficil e perigoso caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz, augmentava muito o perigo do pintor.
Mauricio era um bom christão, acreditava nos destinos da Providencia, e, calculando que d'aquelle perigo só Deus podia salvar Ernesto, encommendou-o com fervor ao Altissimo.
A descida de Ernesto até chegar ao penedo onde se havia refugiado a raposa ferida, durou quatro minutos.
O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:
—Mais profunda é a soledade da minha alma.
Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia despenhar-se, quando ao pôr o pé ou a mão em algum appoio este cedia.
Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro, mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita força nos pulsos.