De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o sustentavam, dando com a cabeça n'um sovereiro, que providencialmente o salvou de uma queda fatal.

Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse para o abysmo, e então era indubitavel que o seu corpo, feito em mil pedaços, não pararia senão quando chegasse ao fundo. Com{168} grande surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava immovel e como morto e que da bôcca sahia algum sangue.

Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso coração, confiado nas suas herculeas forças desceu rapidamente até onde estava Ernesto, completamente desmaiado.

Durante dez minutos fez todos os esforços imaginaveis para o tornar a si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.

Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.

Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.

Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.

O pintor continuava sem voltar a si.

Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que não ficava muito longe.

Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue, soltou um grito de espanto e disse: