O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e, collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que entrasse mais luz.
Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa, não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.
—Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam tão pouco!
E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.
O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo; conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.
O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e sobretudo pela parecença.
Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam{180} para sempre a alma do homem que o recebe.
Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas exprimiam tambem amor e melancholia.
Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato, onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.
Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella incomparavel bôcca.