O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e, amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do quadro.
Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado. Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.
Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.
Rasgou o envellope e leu:
«Senhor conde de Loreto.
«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.
«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem, emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo{181} segue o seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.
«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem um só instante dos meus amigos.
«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra, isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão, deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes com amor e agradecimento os beneficios recebidos.
«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma recompensa do muito que lhes devo.