Só uma vez se poz serio vendo crescer aquella sympathia entre Amparo e o pintor, e disse:

—E a rapariga acaba por se enamorar de Ernesto. Fez algumas reflexões mentaes e ajuntou:

—Diabo, Ernesto é pobre; minha filha tem quatro milhões de dote no dia do casamento e mais oito quando eu morrer.

Aqui tornou a deter-se; mordeu o labio inferior como o negociante que pensa n'um negocio importante, mas rapidamente se lhe alegrou o rosto e exclamou:

—Se ella o ama e quizer casar com elle, que se case; vale mais ter por genro um homem como Ernesto, pobre, do que um parvo rico.

Desde aquelle momento, Ernesto podia contar com a protecção do pae.

Chegou o dia da partida. A viagem podia fazer-se de dois modos: em pequenas jornadas, parando-se para vêr as povoações de alguma importancia artistica, ou em caminho de ferro.

D. Ventura optou pela ligeireza da locomotiva, e os nossos tres viajantes, alegres como estudantes em ferias, installaram-se n'um compartimento de primeira classe. A fortuna favorecia-os: iam sós. Emquanto foi dia, Amparo e Ernesto passaram a maior parte do tempo á janella da carruagem, admirando o panorama que se ia desenrolando a seus olhos.

Os jovens só trocaram algumas palavras em voz baixa; mas os olhos têem uma linguagem tão expressiva, que dizem tudo, quando se movem impulsionados por uma alma apaixonada.

D. Ventura lia o livro offerecido pelo pintor, ou dormitava. Quando chegou a noite, Ernesto bastante timido, apoderou-se de uma das mãos de Amparo, não menos linda do que a da Laura que inspirou a Petrarcha quatro sonetos, e disse-lhe: