—Tão pouca confiança lhe inspiro?

—Sim, muita, meu amigo, muita; de contrario não teria vindo. Mas sou franca, não pude resistir, porque as ultimas palavras que me disse esta tarde pareciam recriminar-me. Bem vê: aqui estou, apezar de tudo. Tive um susto terrivel. Para vir ao jardim era preciso passar pelo quarto de meu pae; receei despertal-o. E sabe o que fiz? Pois bem, vou-lhe dizer: saltei pela janella. Nem eu mesmo posso explicar como tive coragem para tanto: tratava-se de me despedir de um amigo bom e leal, e não tive animo para faltar.

Ernesto tinha entre as suas as mãos de Amparo, que apertava docemente, escutando ao mesmo tempo aquella voz encantadora que tão suavemente lhe vibrava no coração.

Nunca experimentára um prazer tão completo, uma felicidade tão ineffavel.

O perfume das flôres, o aroma da madresilva que se espalhava n'aquelle recinto; a luz tibia da lua, que penetrava no caramanchão pelos intervallos das folhas; aquella mulher, bella como o mais perfeito e encantador sonho da sua alma de artista, tudo contribuia para que Ernesto se julgasse arrebatado da terra pelos anjos e transportado a esse paraizo{44} de amor que tanto embriaga as pobres creaturas.

—Ha momentos de felicidade, exclamou Ernesto, que nunca deviam acabar. Se ao homem fosse dado escolher o momento da sua morte sem passar por suicida, eu escolheria este.

—Está louco, Ernesto?

—Quem sabe! Talvez. O amor não é outra cousa senão uma loucura sublime que conduziu Raphael aos pés de uma moleira, Tasso a uma prisão e Ovidio a uma masmorra. A historia conta-nos tantas loucuras de amor, que seriam necessarios muitos volumes para a descrever. Mas, feliz o que ama e é correspondido! Ditoso o que ao dar metade da sua alma, recebe em troca outra metade que lhe envia um peito agradecido em mutua correspondencia.

Amparo suspirou em silencio. Ernesto, julgando que esse suspiro era uma confissão, levou aos labios a mão da donzella, imprimindo n'ella um beijo.

Amparo estremeceu sem retirar a mão.