—Separemo-nos, Ernesto, estou desassocegada e por enquanto convêm que o nosso amor seja um segredo.
—Já? disse o pintor, tornando a cingil-a pela cintura. Pensa, querida, que em poucos dias nos vamos separar.
—Ámanhã nos tornaremos a vêr aqui, se eu puder vir; mas hoje... hoje não devo ficar mais tempo.
—Pois bem, sim, separemo-nos, não quero que estejas inquieta; sou demasiado feliz para te desgostar; mas se te inspiro confiança, se queres que seja esta a noite mais bella da minha vida, permitte-me que selle com um beijo a mutua promessa que acabamos de fazer.
—Meu Deus, Ernesto, por compaixão! Ah! Para que vim?
O pintor estreitou docemente o desfallecido corpo de Amparo de encontro ao seu. Aquellas duas cabeças jovens, apaixonadas, uniram-se; aquellas duas boccas tocaram-se e o doce som de dois beijos confundidos n'um fugiu nas azas da brisa nocturna.
Pobre Ernesto! Elle tinha dado toda a sua alma n'aquelle beijo, emquanto que Amparo só lhe tinha feito uma esmola como paga de agradecimento que a sua deferencia para com ella inspirava.{46}
Amparo desprendeu-se dos braços de Ernesto, sahindo rapidamente do caramanchão.
Ernesto deixou-se cahir n'um dos bancos, murmurando em voz baixa:
—Meu Deus! Esta felicidade que sinto é demasiadamente grande para que seja duradoura!