II

BARBARA, ESCRAVA

Ajoelhara a negra suspirando Postas as mãos, os labios contrahidos, Diziam as canções dos seus gemidos Mais do que os prantos com que estava olhando. Camões fitava o espaço, meditando, Bem longe o coração, longe os sentidos; E de seus olhos, para a dôr nascidos, As perolas caíam, deslisando. Um queixume da negra, compungente, Acordara o poeta, que sonhava Com a patria querida e o amor ausente. Ella co'os olhos n'elle comtemplava, Elle co'os olhos n'ella era indifferente, Que todo aquelle mal outra o causava.

III

NA VOLTA Á PATRIA

(SALVAÇÃO DOS LUSIADAS)

Cinzenta a côr do ceu, a noite baça, O vento chora nas enxarcias, rude Como grito plangente d'alaude, Vibrado pelos dedos da desgraça. Além nenhuma estrella então perpassa, É o horisonte um lugubre athaude, Fervem as ondas altas como açude Que as torrentes ás agoas embaraça. Vem da China o baixel desarvorado, Sulcou o mar com soffrega vontade, Até que o mar o fez despedaçado. Sorrindo heroicamente á tempestade, Paga o zelo maior do seu cuidado Camões, salvando á patria a eternidade.

IV

UM VERSO DE CAMÕES

Não desço agora á fria sepultura, Não roubo á morte os pavidos segredos, Não quero desfolhar com estes dedos Do gelo a flôr de extranha formosura. Não vou cingir na tua fronte pura, Cheio de horror,--o labio e os olhos quedos,-- Por entre a noite e os tristes arvoredos, D'uma fatal grinalda a eterna alvura. Deixa que viva assim em treva absorto, Cadaver, caminhando, tristemente, Em demanda do meu perdido horto. Já que ventura amor me não consente, Que não recorde mais meu peito morto Erros meus; má fortuna, amor ardente.