V

FLOR PERDIDA

Quando sorria a infancia docemente Aos olhos infantis da minha esp'rança, Era-me o ceu azul, azul bonança Me enchia o alegre peito, ternamente. Brilhante o espaço, a aurora transparente, Brando o futuro se a illusão avança!... Assim jámais o coração se cança, Mostrando á nevoa fria um sol ardente. Pastam os olhos meigos pelos prados, Os astros rompem sempre vigorosos As campinas do ceu, fortes arados. E murcham sobre a campa luminosos os lyrios! É que lembram, emigrados Alegres campos, verdes, deleitosos.

VI

OS TEUS OLHOS

I

Inveja a noite escura e tenebrosa A negra côr do teu olhar vibrante, Espelho d'alma triste e peito amante, Imagem d'uma estrella radiosa. O teu olhar de fogo!... É assombrosa A luz que espalha ao de redor; distante Se fôr um dia, caminheiro errante, Que elle me enxuge a face lacrimosa. Se além, na campa, os membros já cançados Eu repoisar ao pé dos tristes lyrios E dos funereos goivos delicados. Pago serei então de meus martyrios, Se, juncto a mim, teus olhos magoados Forem-me, ali, os derradeiros cyrios.

II

Os olhos que me deram na existencia, Com seu gentil fulgor de virgindade, Umas vezes amor, outras saudade, Renascendo-me a paz na consciencia; Olhos cheios de vida e de innocencia, Revivos de perfume e suavidade, Olhos de tão formosa claridade Que escurecem do ceu a transparencia; Talvez sejam ainda os companheiros Da melodia heroica de meu canto, Meus amigos sinceros, verdadeiros. Talvez!... Mas se podér a sorte tanto Que os affaste de mim, que os derradeiros Suspiros meus orvalhem com seu pranto.

VII