CRUEL DESTINO!
Tudo se abraça n'este mundo, creia! O mundo é sonho passageiro, breve, Se além a sorte a sina nos descreve, Tambem o amor impelle a nossa ideia. Abraça o mar, bramindo, a branca areia, O zephyro que, á tarde, vae de leve Pelo norte a voar, abraça a neve, Abraça a chamma um corpo que incendeia. A hera abraça o tronco que, elevando Os braços para o espaço, os entrelaça No doce arfar da naturesa, brando. O raio abraça o cedro que estilhaça, A lua abraça o mar, se está brilhando, Só o meu peito, amor, a não abraça!
VIII
VITA NUOVA
Senhora de minh'alma, a suavidade Dos teus labios gentis tornou-me á vida; Tinha a esperança morta e já perdida E deu-lhe um beijo teu vitalidade. Passou a dor mimosa da saudade, Surgiu no oriente a aurora apetecida, Brotou a flôr, ha muito emmurchecida, A bella flôr d'alegre mocidade. Agora canto o sol, as philomelas, O vasto mar, as lucidas estrellas, A noite escura e a branca luz da alva. Lasaro resurgi da terra fria, Abrindo o olhar já baço á luz do dia... --É que um beijo, senhora, tambem salva.
IX
AQUELLA FLOR
É assim como o rosto de Paulina, Cruelmente por Nero perseguida, Aquella flôr que estimo mais que a vida, Flôr gentil de face purpurina. Nas suas folhas leio a minha sina; Talvez cheia d'amor, talvez florida Renasça a fé, n'esta alma, dolorida, D'aquella flôr á nota sibyllina. Quando poisar d'ausencia o escuro manto E se ouvir, n'uns timidos harpejos, O meu remoto e solitario canto, Ó brisas que passaes por estes brejos, Estou a ungil-a com saudoso pranto E a reanimal-a com ardentes beijos.