XIV

ULTIMA SUPPLICA

Eu tenho os olhos gastos por chorar-te, Por tua ausencia eu trago o peito anceado, Procuro-te no espaço illimitado, No mar, na terra, emfim em toda a parte. Embora a mente julgue divisar-te No seio d'uma estrella, illuminado Ou d'uma flôr no calix perfumado, Nem sei aonde vá para adorar-te. Tudo me falla em ti!... Ninguem me escuta Se busco em ti fallar, visão perdida! De dôr assim o coração se enlucta. Immaculado amor, pomba fugida, Da sombra aonde estás termina a lucta A quem por te não ver morre na vida.

XV

CIUME

Não sabe com certesa o que é ciume, O que é sentir no peito, em vida, gelo, Pegar no coração e contorcel-o, Subir da raiva e do odio ao negro cume. Não sabe o que é do amor o ardente lume... Sonhar um vasto ceu e comprehendel-o, Para ver, cruelmente, desfasel-o, Na sombra da illusão, voraz negrume. Não sabe, não, senhora!... ai! se o soubesse, Se o podesse antever, se o comprehendesse, Estrangulando a vida, á voz do amor... Por mais cruel que fosse não daria A uma alma, irmã da sua, essa agonia Vendo-a morrer em convulsões de dor.

XVI

ETERNO AMOR

Se a morte me extinguir a mocidade, Cortando o fio de penosa vida, Julgar-me-has uma illusão perdida, Haverá dentro em ti uma saudade? Buscarás descobrir, na immensidade, Quando a noite passar enegrecida, Uma estrella serena e dolorida Que te falle de mim, da eternidade? Ou antes, esquecendo antigo enleio, Extinguirás de vez, dentro em teu seio A lava enorme d'um passado amor? Se fôr assim, em noite tenebrosa, Tu hasde ouvir minh'alma lacrimosa, Magoadamente a suspirar de dor.

XVII