SUPPLICIO AMADO
Com oiro fino e pedras recamado, Outr'ora um rei de Hungria deu o throno, Para dormir um passageiro somno D'uma donsella no regaço amado. Ao ver o rei assim apaixonado Sorria a corte com sinistro entono! Neto de heroes vencido... ao abandono... --Ai, quem em tal houvera então pensado. Se fôra rei daria o throno, a gloria, A c'roa, o manto, a fama, a patria, a historia, O paço, as cortesãs e o sceptro bello, Não por dormir um somno d'innocencia No teu regaço, em morbida indolencia, Mas para me enforcar no teu cabello.
XVIII
SE ESCUTO...
Se escuto ao longe a timida harmonia Da tua voz vibrante, modulando Um cantico d'amor, ou suspirando Em requebros profundos d'agonia; Bebe minh'alma, então, a melodia Que o labio teu, assim, vem distillando E sabe Deus se, ali, sempre ficando Minh'alma de beber se fartaria. A tua voz serena é mais suave Que o colo branco e puro d'uma ave Que o seio mais gentil d'uma rainha. Ai, viesses tu cantar, eternamente, Sorrindo ou soluçando, docemente Dentro do peito meu, ó alma minha!
XIX
DEPOIS DA MORTE
Se a crua morte te arrancar um dia Dos braços meus, ó pomba estremecida! Irá no teu caixão a minha vida, Do meu amor a doce melodia. Quando sentires collada a terra fria Sobre o gelado peito e comprimida A nivea face que a beijar convida E que continuamente beijaria; Hasde ouvir minh'alma, suspirando, Muito de manso, como um tenue alento, No canto triste do nocturno bando. Escuta, então, meu lugubre lamento... No ceu, serena, a lua irá passando, Por sobre a terra gemerá o vento.