Quando longe de ti te vejo perto E te abraço, nervoso a todo o instante, Ó minha bella e carinhosa amante, Não sei se sonho ou se estou disperto. Por teu olhar d'amor sempre coberto Junto de ti quando de ti distante, Ouço-te a voz gentil e sussurrante, Ouço jurares-me o teu enorme affecto. Em tudo que me cerca e me rodeia Eu vejo a tua imagem carinhosa, Ó minha doce e terna Dulcinea. Falla-me em ti, a madresilva e a rosa E tudo a quanto eu levo a minha ideia... Vejo-me preso em teu amor, formosa!

XXI

PALAVRAS D'UM SCEPTICO

I

Eu não escalo as rochas de granito, Eu não transponho as vastidões do mar, Nem vou rasgar o ventre do infinito, Passo a existencia, inerte e sem pensar. Não sei se Deus existe, ou se é um mytho, Imposto á crença para atormentar Da humanidade o largo peito afflicto, Em noites de negrume, sem luar. Vivo n'uma anciedade indefinida, Cheio de Raiva, ensanguentado e vil, Sem mesmo comprehender o que é a vida, Ai! talvez seja um lugubre covil, Uma passagem horrenda e dolorida D'um mundo mau a um outro mais gentil.

II

Talvez seja uma ponte arremessada D'um nada a outro nada incomprehensivel, Talvez seja uma nota não tangivel Na harpa pelo Destino dedilhada. A vida... talvez seja uma enseada, Onde aporte, na furia inconcebivel Dos elementos mil do Incognoscivel, Noss'alma, sem timão, desarvorada. Deixae livre correr a phantasia, Ó sabios que arrancaes á terra fria Os mysterios de toda a immensidade... Que a morte, poderosa como o incendio, De vós rirá, com forte vilipendio, Levando-vos talvez á Eternidade.

XXII

ADORAÇÃO

Ouço dizer, ha muito, que a saudade Aviva n'alma os grandes sentimentos, Engrupando n'um só os pensamentos Que se reunem, além, na immensidade. Deixei-te um dia em triste soledade, Parti, cheio de dor e de lamentos; O pobre coração, entre tormentos Luctando com raivosa anciedade. Voltei tempo depois:--O sol raiava, Sorria a primavera, e ostentava O agreste breijo a perfumada flôr. E ao ver-te, novamente, ó doce amante, Disse a teus pés cahido e murmurante: --Bemdicta a naturesa e o teu amor!