Já na sége, para onde se deixára arrastar atordoada, reparou Maria na falta da mãe, e pelos gritos comprehendeu o que se passava.

Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que não o autorizava a tanto.

N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente:

—Então, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode opprimir uma mulher!

X

Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no vão da janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as mãos dadas, tão perto os labios, que só os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar vigilante da tia Victorina, a mãe de Josepha da Esperança, enterrada na poltrona, roca á cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica, grande tecedeira, que as lançava no tear em guardanapos, lençoes e colchas, a trinta reis a vara.

Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo, permittia-lhes, aos domingos, a dona da casa, esse curto desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a commoda negra, de pés recurvos, e a porta de vidraça da escura alcova onde dormiam as raparigas.

Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a João ao postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam canarios.

Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D. Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distração das tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na burrinha, que o moço tangia, escudeirando-a.