E fui abandonado pl'a tristeza,
Recobrei para a lucta mais vigor
Trabalharei tenaz e com firmeza.
Vou-me tornar estoico contra a dor.
Eu vi n'esse sorrir de tal belleza
A firme espr'ança d'um eterno amor!
Lisboa, 1891
+Á MEMORIA
DE
ALFREDO LOPES+
Viver! O que é viver! Arrastar a existencia
No vasto labyrintho onde só reina a dor;
N'um pouco de materia é guia a consciencia
Quasi a perder-se a força, a faltar o valor.
Morrer! Passar além! Da lucta repousar,
Deixar por uma vez do mundo as agonias;
Descer á terra mãe, os lyrios fecundar,
Servir de refeição aos vermes nas orgias.
Mas coisa alguma nasce e coisa alguma morre.
Transforma-se a materia em mil combinações:
Seiva, no vegetal as hastes lhe percorre;
Sangue, faz palpitar os nossos corações.
Tu então não morreste; apenas d'esta lida
Immensa, em que mostraste o fulgido talento,
Descanças. No teu corpo ha ainda essa vida
Que palpita da terra ao proprio firmamento.