[[14]] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra incomparavelmente melhor?
[[15]] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na Revue des Études Anciennes (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a caminhos de epocas prehistoricas, diz: Et il résulte bien.... que beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années.
[[16]] Para os leitores habituaes do Archeologo Português, seria ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla em castros com supposta referencia á epoca romana, não se trata dos castra, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg) fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha: nunca vi ruinas de nenhum d'estes castra, nem me consta que as haja verificadas no pais. E comtudo os castros, ou crastos no fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas muito differentes. Estes castros são apenas uns montes com vestigios de habitação ante-romana e quasi sempre de obras de fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país. Os castros devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos documentos da idade media. É que no singular castrum significou secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI da Eneida, onde se lê (vv. 771 a 776):
Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!
At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,
Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,
Hi Collatinas imponent montibus arces,
775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:
Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.
(Oevres de Virgile, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).
(Trad.) Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas, Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora (antigas povoações do Lacio): estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na terra sem nome.
Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a denominação de castro ou crasto.
Na Revue des Études Anciennes (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra castrum se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de entre todas extraio a seguinte de Isidoro (Origines, XV, 2, 13): Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm. Com referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido Portumcale castrum, de Idacio.
Mas a par d'aquella, outras se formaram, como castello, cristêlo, crastêlo e castrêlo. Castellum (cfr. cit. Rev. des Ét. Anc.) na lingua latina, era um deminutivo de castrum e applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & Daremberg, s. v. Castellum). Depois, é explicavel que a linguagem popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as designações de cividade, mais ou menos pura, cidadêlhe, coroa e outras ainda. Os autores antigos usam o termo oppidum applicado a alguns d'estes centros de população (oppidum Aeminium). E ainda se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo, o termo de origem celtica briga, que tambem quer dizer castello, altura fortificada (Talabriga).
Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico e uma directriz frequentada.