Das leis de Lycurgo eram umas de caracter politico, as outras de ordem civil. As primeiras mantiveram as relações estabelecidas entre os Espartanos dominadores e os Laconios avassallados; conservaram os dois reis de Esparta, regulando os direitos da realeza dividida pelas duas casas. Os dois reis deviam pertencer á raça dos Heraclidas, possuindo portanto a sua dignidade por direito hereditario; eram investidos nas mais altas funcções do sacerdocio e da justiça; pertencia-lhes o commando dos exercitos e o cuidado de velarem pela execução dos decretos formulados pelo senado, e livremente acceites pela assembléa do povo. O senado (Gerusia) compunha-se de 28 velhos, cuja edade minima fosse a de 60 annos, pertencentes a familias nobres. A assembléa do povo (Ecclesia), na qual tomavam parte todos os cidadãos de mais de 30 annos de edade, tinha o direito de adoptar ou de regeitar sem discussão as propostas feitas pelo senado e pelos reis. Finalmente, o collegio dos Ephoros (cinco nomeados por um anno) era composto de magistrados que, sendo nos primeiros tempos da sua creação simples governadores de districtos e juizes nas questões civis, chegaram em tempos posteriores a um alto grau de poder, superintendendo nos serviços de todos os funccionarios, sem exceptuar mesmo os Gerontes (senadores), e chegando a tomar contas aos proprios reis.

As leis civis de Lycurgo assentaram sobre o principio da mais estricta egualdade entre todos os cidadãos, a começar pela egualdade dos bens. Dividiu elle o sólo da Laconia em{23} 39:000 quinhões, sendo 9:000 para as 9:000 familias espartanas, ficando esses quinhões indivisiveis e transmissiveis por direito de primogenitura, e 30:000 para os Laconios, que talvez não passassem de usufructuarios. Os Hilotas não só não tiveram quinhão na partilha, mas ainda foram obrigados a cultivar, como servos e jornaleiros, as terras dos Dorios. As terras assim distribuidas, com a condição de não passarem a mãos estranhas, constituiam uma especie de feudos militares inalienaveis. Com o mesmo pensamento de manter a egualdade, Lycurgo prohibiu o luxo; e, para desacreditar a riqueza e tornál-a de um certo modo impossivel, proscreveu toda a moeda de oiro e de prata, permittindo apenas a de ferro, com pezo consideravel e diminuto valor, afim de obstar á accumulação d'ella. Instituiu as refeições publicas subordinando-as á mais apertada frugalidade. Prohibiu tambem o commercio, as artes e as lettras; e ordenou que todos os cidadãos concorressem aos mesmos exercicios physicos, afim de preparar rijos defensores para o paiz. No mesmo intuito incaminhou a educação da mocidade, de modo que as creanças pertenciam mais á republica do que a seus paes; as que nasciam fracas ou disformes eram impiedosamente mortas, afim de não alterar o vigor e a belleza da raça.

Assim Lycurgo constituiu sobre bases novas a cidade, a familia, a propriedade, a educação. Ha muitas duvidas sobre o tempo justo em que esta revolução se effectuou, tornando-se provavel que levasse a consummar-se um longuissimo prazo, sendo muito mais resumida a obra de Lycurgo.

Na opinião de muitos criticos é contestada a existencia do proprio Lycurgo, sendo este nome apenas admittido como symbolo de uma serie de revoluções politicas e sociaes, comprehendidas n'um periodo de tempo indeterminado.

Guerras de Messenia.—Esparta, vendo-se livre das suas dissensões internas, graças á rigorosa legislação de Lycurgo, resolveu continuar a conquista do Peloponeso, e estabelecer a sua supremacia sobre os povos que a rodeavam. De 860 a 815 A. C. occupou-se em reduzir as cidades laconias que se haviam emancipado do seu jugo durante o periodo que ella consumira na sua reorganização civil e politica. Depois voltou as suas armas contra Messenia.

Eram os Messenios de raça dorica, como os Espartanos; e, bem como os d'estes, os seus reis pertenciam ao tronco real dos Heraclidas. Muito tempo viveram em boa paz os dois povos irmãos, prestando culto a Diana no mesmo templo, erguido{24} na fronteira commum, em memoria da sua origem fraterna.

Talvez rivalidades de supremacia e de poderio começaram a dividir os dois Estados, alimentando entre ambos hostilidades surdas durante mais de meio seculo. Porfim, em 766, rebentou uma guerra aberta e geral. Foi a primeira guerra de Messenia, a qual durou vinte annos.

Os Messenios depois de uma serie de desastres consultaram o oraculo de Delphos, o qual, pela voz da pythoniza, lhes ordenou a immolação de uma virgem pura, da familia real dos Epytidas, para acalmar a vingança dos deuses infernaes. Aristodemo immolou sua filha para obedecer ao oraculo; mas, vendo cahir Itoma, cuja defesa sustentára durante dez annos, e perdendo a esperança de ver salva a patria, matou-se sobre o tumulo da filha, tão impiedosa e barbaramente immolada. Os Messenios submetteram-se porfim (723) e os Espartanos impuzeram-lhes condições que os escravizavam.

Volvidos quarenta annos de jugo, rebentou a segunda guerra de Messenia. Aristomenes, o heroe da independencia nacional, não sómente bateu os Espartanos, mas chegou a penetrar de noite na cidade e a ir collocar um trophéu n'um dos templos d'esta. Os Espartanos, aterrados, vêem-se reduzidos a pedir um general aos seus rivaes, os Athenienses. Estes inviam-lhes, por escarneo, um poeta obscuro, Tyrteu, o qual perde successivamente tres batalhas, mas consegue reaccender a coragem abatida dos Lacedemonios com os seus hymnos heroicos, acabando por conduzil-os á victoria.

Aristomenes, trahido pelo seu alliado Aristocrates, rei dos Arcadios, é vencido na renhida batalha das Trincheiras (680) e retira-se para o monte Ira, onde prolonga por onze annos uma resistencia merecedora de melhor exito. Porfim succumbiu na lucta pertinaz, e retirou-se, preferindo o exilio á escravidão. Esparta submetteu de todo a Messenia, reduziu os habitantes á condição dos hilotas, mas não conseguiu nunca diminuir o odio implacavel dos opprimidos, os quaes lhe votaram uma inimizade perpetua.