Esparta desde a segunda guerra de Messenia até ás Guerras Medicas.—Seguiu-se para Esparta um longo periodo pacifico, de mais de quarenta annos. Ao cabo d'elle, rompeu a lucta com os Arcadios, lucta que durou quasi sessenta annos, terminando, cêrca de 600, pela affirmação da supremacia espartana. Argos teve de renunciar á hegemonia sobre o Peloponeso que lhe pertencêra de um modo fugitivo durante algum{25} tempo (768-740), depois de ter perdido, pela bravura do espartano Othryades, a provincia de Cynuria e a cidade de Thyréa (550), e de ter sido desbaratada perto de Tiryntho pelo rei Cleomenes (524). Os episodios de todas estas luctas pertencem mais á poesia heroica do que á Historia.

Os Argivos, depois dos seus desastres, e sentindo a sua humilhação, tomaram por systema o conservarem-se afastados, d'ahi em deante, de todas as impresas dirigidas pelos Espartanos, bem como estes se satisfizeram com a honra de terem abatido o poderio dos seus rivaes. Nas guerras geraes, em que intervinham todos os Estados do Peloponeso, os Espartanos determinavam as forças que cada Estado tinha de fornecer ao exercito confederado, presidiam ao conselho da Liga, e exerciam o commando superior das tropas. Um pouco antes das Guerras Medicas, cerca de 690 A. C., eram o povo mais poderoso da Grecia continental.

[CAPITULO IV]

ATHENAS. LEGISLAÇÃO DE SOLON. OS PISISTRATIDAS. A DEMOCRACIA ATHENIENSE

É capital a differença entre os Espartanos e os Athenienses, se os considerarmos na escolha da sua fórma de governo: ao passo que os primeiros conservam durante seculos a constituição de Lycurgo, os segundos passam vezes sem conto de uma para outra constituição, experimentando todas e não os satisfazendo nenhuma.

Com a morte corajosa de Cedro (1068 A. C.) acabou a realeza dos tempos heroicos, e acabou tambem, ou foi modificada a realeza propriamente dita. Os Athenienses escolheram então na familia dos Medontidas (Codridas) um magistrado vitalicio, chamado archonte, que exercia funcções régias, mas privado das principaes prerogativas da realeza.

Esta revolução, que a poesia tradicional cercou de lendas, não pode ser explicada por ellas, em boa critica; e parece mais provavel que fosse antes uma victoria das familias aristocraticas sobre o poder supremo. Essa aristocracia (Eupatridas) formada dos chefes das antigas tribus pelasgicas e dos das diversas emigrações eolias e jonias ficou d'ahi em seguida{26} senhora absoluta do Estado. Instituindo uma sombra de realeza em logar da realeza antiga, attribuiram, por deferencia, a nova magistratura a Médon, filho de Codro, e conservaram-a em doze dos seus descendentes, sem comtudo deixarem de fazer ao archontado a mesma guerra que haviam feito á realeza. Por fim, cêrca do anno 752, deram profundo golpe no archontado perpetuo, reduzindo-lhe a duração a um decennio.

Succederam-se septe archontes decennaes, até que, em 684, o archontado se tornou annual e composto de nove archontes tornando-o assim accessivel a todas as familias nobres e aos muitos elegiveis que ambicionavam tão alto logar. Nas mãos d'elles estavam todos os poderes: o politico, o judiciario, o civil, o religioso, o militar. Athenas era uma oligarchia pura, governada pelas familias nobres.

As classes baixas foram então muito opprimidas, tornando-se, em breve, ameaçador o seu descontentamento. Muitos nobres, despeitados com os seus rivaes e querendo hostilizál-os, procuraram apoio na opposição popular e deram-se ao incargo de regularizál-a para a fazerem servir aos seus fins. Entre essa nobreza contavam-se as grandes familias athenienses dos Alcmeonidas e dos Pisistratidas. O povo, incitado e aconselhado por elles, reclamou um codigo de leis escriptas, porque até ahi apenas havia costumes e leis oraes que os Eupatridas, unicos juizes, interpretavam ao sabor das suas paixões ou dos seus interesses.

A nobreza, assim atacada nos seus baluartes, condescendeu com as aspirações do povo e serviu-se d'essas mesmas pretenções para comprimir a emancipação do espirito popular. Incarregou um dos seus, o archonte Dracon (620), de redigir a legislação nova. As leis de Dracon eram severissimas na applicação das penalidades, sendo castigadas com a morte até mesmo pequenas faltas. A sua dureza inflexivel tornou-se proverbial, e ainda hoje se diz lei draconiana de alguma lei excessivamente severa. D'ellas disse um orador grego, que tinham sido escriptas com sangue.