Dividiu a população em dez tribus, tendo cada uma dez démos ou districtos, e n'esta nova organização geographica e politica estabeleceu direitos eguaes para todos os cidadãos. Cada dois démos formavam uma naucraria, á qual incumbia armar e equipar uma triréme e fornecer um epheta (juiz) ao tribunal criminal do archonte-rei. Elevou a quinhentos o numero dos senadores, eleitos annualmente pelas dez tribus, sendo cincoenta por cada tribu. O archontado, continuando a ser apanagio dos maiores contribuintes, tornou-se cada vez mais um cargo puramente honorifico. A auctoridade do areopágo foi limitada na mesma proporção. As assembléas do povo reuniram-se com mais frequencia, adquirindo este uma{30} acção directa e preponderante nos negocios publicos. Todo o cidadão, quando chegava aos trinta annos, tinha voto consultivo e deliberativio na assembléa geral e era apto para juiz ou jurado.

Clisthenes forneceu, egualmente, ao povo uma arma nova e poderosissima, o ostracismo. Consistia este no direito de exilar por dez annos (honrosamente) todo o cidadão que, pelo seu poder, pela sua grande consideração, ou pela sua excessiva influencia, fizesse perigar a egualdade civil, a constituição democratica, e as liberdades publicas. Quando a conveniencia de exilar um cidadão n'estas condições era apresentada ao povo, este escrevia n'uma concha (em grego ostrakon; e d'aqui a palavra ostracismo) o nome d'aquelle que tinha de ser banido. Eram necessarios, pelo menos, seis mil suffragios, para a sentença poder ter execução.

O ostracismo não era uma pena applicada a um culpado; era uma demonstração de honra e de consideração, e ao mesmo tempo uma medida de prudencia contra a possibilidade de uma tyrannia.

Isagoras, chefe da facção aristocratica, pediu soccorro aos Espartanos, a exemplo do que haviam feito os Alcmeonidas, a cuja frente estava agora Clisthenes, e elles mandaram-lhe o rei Cleomenes á frente de um exercito. Clisthenes foi proscripto com mais septecentas familias athenienses, e Isagoras submetteu a cidade a um conselho oligarchico de trezentos Eupatridas. O povo sublevou-se, tomou a cidadella, expulsou os Espartanos e Isagoras, abriu as portas da patria aos banidos, e confirmou as leis de Solon com as reformas de Clisthenes.

D'esta fórma a democracia triumphou, porque o povo attingira um elevado grau de cultura politica e tinha a consciencia e o sentimento da sua força, e da sua liberdade. Com a victoria do novo systema de governo começou o periodo da grandeza e supremacia de Athenas. Decorrendo apenas vinte annos desde a queda de Hippias até ás Guerras Medicas, e sendo elles quasi completamente occupados com dissensões intestinas e com guerras externas contra os Beocios, os Eginetas, os Chalcidios e os Espartanos, Athenas conseguiu pelo acerto da sua politica e pelas vantagens das suas armas dilatar por toda a Héllada a sua influencia politica e o seu prestigio. Apossando-se da Eubéa, do Chersoneso da Thracia, e da ilha de Lemnos, que Milciades conquistou, tornou-se uma formidavel potencia maritima, potencia que Themistocles ainda ingrandeceu mandando construir 200 navios com o producto{31} das minas de prata do Laurion, como em seu competente logar diremos.

A democracia atheniense, com todas as suas consequencias, durou 200 annos, salvo algumas perturbações; e tão longa duração explica-se pela comprehensão que todos os cidadãos tinham da vida politica e pelas disposições naturaes do povo, de modo que a nova fórma de governo não era um accidente, mas sim uma constituição profundamente radicada. O povo comprehendia que a sua soberania propria estava na soberania da lei e na inviolabilidade d'esta, e não tolerava o arbitrio individual.

Aristides, uma das mais puras individualidades entre os estadistas de todos os povos, poz o remate ás instituições de Solon, abrindo a carreira do archontado e das outras funcções publicas a todos os cidadãos, sem privilegios de nascimento nem de riqueza.

Os septe sabios da Grecia.—Por esta designação vulgar, ficaram sendo conhecidos uns homens eminentes da Grecia, a quem o povo attribuia sentenças e maximas concisas de verdadeira sabedoria experimental e practica. Eram os representantes da sciencia e da experiencia moral, politica e social, do seculo VI. Ha, porêm, confusão e divergencia nos nomes d'elles, e nas sentenças que lhes são attribuidas. Segundo a maioria das versões, os septe sabios eram: os quatro philosophos da Grecia asiatica, Thales, Pittaco, Bias e Cleobulo, de Lindos, na ilha de Rhodes; e os tres da mãe-patria, Solon, de Athenas; Chilon, de Esparta; e Periandro, de Corintho, sendo ás vezes substituido este ultimo por Pherecydes, de Scyros, ou Myson, de Laconia.

Escravidão e servidão.—A escravidão na Grecia data dos tempos pelasgicos, como o provam os monumentos cyclopicos, demonstração evidente de que os homens empregados em erguêl-os viviam nas condições de uma escravidão durissima. Ha vestigios d'ella:—nas lendas dos tempos primitivos, como nos mythos, de Apollo, escravo de Admetto, e de Hercules, duas vezes escravizado; no tributo de mancebos e donzellas, imposto por Minos aos piratas athenienses; na constituição das republicas cretenses; e, finalmente, nos proprios poemas homericos.

No começo dos tempos historicos, os Thessalianos, submettendo os povos das regiões onde foram estabelecer-se, reduziram-n'os, pelo confisco das suas propriedades, a um regimen{32} analogo á servidão da gleba. Estes servos tiveram o nome de penestes. Durante a guerra do Peloponeso, um cidadão de Pharsalia poz 1:200 penestes á disposição de Athenas.