—Descance, não ha perigo. Perdeu-se, procura-se. Está ahi a brincar n’alguma casa, com petizes da sua idade. Naturalissimo! Quando o largou o amigo?
Referiu atabalhoadamente que tinha ido ao banho muito cedo, mais gente na praia que o costume, uma algazarra do inferno, senhoras e homens em confusão. Foi a fallar com um amigo, largou a mão da creança quando ia por entre os grupos—o caso foi que o não viu mais.
Inda andou a procurar por todos os cantos, expediu banheiros pela praia fóra, foi perguntando a uns e outros se o tinham visto, correu á policia, ninguem soube dar-lhe razão de tal creatura.
Passeava desesperado pelo quarto, com suspiros oppressos, um peso no peito, forjando destinos tragicos do pequenito—podiam tel-o roubado os barqueiros, talvez morresse afogado, alguem lhe queria mal.
—Quem ha de querer-lhe aqui mal, homem de Deus? Nem o conhecem, descance. Foi passar o dia a uma quinta, é o que foi. Familia que o levou, creanças que o tomaram para amigo, e o não deixaram vir. Qualquer coisa natural, emfim. Ámanhã vem trazer-lh’o a casa. Succede todos os dias!
Mas elle não attendia, torcendo as duas mãos cruzadas, indo furiosamente de um lado para outro com o ar hirsuto d’um lobo, e gestos phreneticos de quem debate algum problema interior.
—Eu morro, morro sem o meu filho!... dizia com o olhar extincto, parando bruscamente na casa—E como eu o abraçava compungido de o vêr penar assim, forçando-o a que descançasse no sophá, pretendendo distrahil-o com palestras de acaso, sobre a praia, as boas mulheres abandonadas no banho, noticias de jornaes, preços de gado ou qualquer coisa—de olhos no chão, elle remordia febrilmente o beiço, e em estribilho fazia de quando em quando:
—Valha-me Deus! Tive uma cruz bem pesada!
Eu fingia não ouvir os seus lamentos, e ia contando a scena do conde, o seu cynismo de bebedo, e dos meus appetites sobre a bella condessa da sombrinha japoneza. Que mulher, amigo morgado, que magnifica mulher! Uma cantharida! E livre do vinho abria-me com elle, tinha andado atraz do marido havia pouco, perdera-me d’elle sem saber, e que ciumes no meio da noite negra! Relembrando o talhe opulento d’essa mulher, a pallidez real da sua face, meneios estouvados, elegancia da cinta e dentes frescos, outra vez sentia renascer-me o phrenesi voluptuoso; insensivelmente a minha voz cahia, dizendo coisas libertinas ao ouvido do morgado. E a cada passo consultava-o:
—Vossê não acha? Eu cá fazia isto e aquillo, e vossê, morgado?...