Quando porem o pensava interessado no que eu dizia, esquecido do pequeno, e em repouso da aspera tormenta intima que havia tanto o minava, eil-o a chorar outra vez, um chôro amarissimo e fundo, que mettia dó. E da sua cabeça resignada, cahiam falripas algentes, n’uma aureola veneravel.
—Vê-se que é o filho unico, dizia-lhe eu contemplando-o. Tivesse o amigo outro, já não seria tão susceptivel. Mas admiravel, morgado! Imagine que é tudo atraz d’ella. Dizem-me até que um da familia real lhe fez propostas de archi-millionario. Aqui sabe-se tudo. Mas console-se, seja homem, aqui tem cigarros, distráia-se...
Que diabo, já se não roubam creanças para oleo! Estamos em paiz culto, e n’uma pequena terra onde fallamos todos. Póde tranquillisar-se, afianço-lh’o.
—E essa mulher, esse diabo, disse elle de repente, com uma especie de angustia, é esposa d’esse homem, talvez?
—Ah, bom maganão; já toma calor! De resto, uma cocotte.
Mas esplendida, não imagina!
Esteve a olhar para mim, e furioso, como fallando para dentro de si proprio:
—Horas em que tenho mesmo vontade de arrebentar p’ra ahi!...—E n’um rir patibular que o transtornava: então é mesmo boa? Isto é lá vida, nem o inferno!
Eu encarava-o já surprehendido,—e as lagrimas cahiam-lhe pelas barbas, tocavam-se de luz um momento, e vinham rolando algumas pelo peitilho, grossas e limpidas. Como encostava a cabeça á mão, vi-lhe na origem do annular uma alliança fina, muito apertada, brilhando a espaços sob a rosca carnuda do dedo. E aquillo recordou-me a esposa d’elle, morta, viva, sei lá!...