—Meu amigo, disse eu impudentemente, o seu caso é triste, adivinho-o. Mas tenha animo!

Vi-o pôr-se de pé subitamente, arquejante, moido do esforço, quasi sem me poder fallar. Mas alguem vinha na escada fallando devagarinho, uma voz disse muitas vezes:

—Pae! Pae!

—Ora ahi tem o Luizito. Não lhe dizia, piegas?

Veio abraçar-me pelas costas, quasi risonho, esquecido do mais, furioso por abrir a porta, e enxugando lagrimas á pressa. Agarrei no candieiro para alumiar, e elle como estava, de chinelos, em mangas de camisa, poz-se a descer a escada ingreme, frouxamente esclarecida de cima para mim.

O pequeno subia custosamente, carregado de bonito e bolos.

—Olhe, dizia com vozita espapada, um cavallo tão bonito! E estes soldados Espere ahi! E uma caixa de musica, toque lá, ande.

Sem responder, o velho estacára de braços cahidos, cachaço sem collarinho, os ignobeis chinelos mettidos nos pézorros de camponio, mangas arregaçadas como um taberneiro. Olhava á porta da escada um vulto de mulher embuçado n’uma sortie-de-bal, alto, fino e flexivel de silhouette, derrubando sobre a frente o capuz da cobertura, excentricamente talhada em dominó, de cujo bico cahia, sobre damasco e rendas, um laço de pontas fluctuantes.

Apenas appareci com a luz, a mulher recuára para a rua, e no meio da escada, irresoluto e tremulo, com um meio ar idiota, o morgado olhava para mim, para o pequeno, e para tudo, sem saber o que fazia.

—Sobe, filho, sobe...