Veio atraz da creança de cabeça baixa, pisando os degraus com dificuldade e todo pallido da apparição. Entrou a vestir á pressa o collete, pôz collarinho e gravata, calçou as botas dando gemidos dos callos magoados. E deante do espelho, coisa rara! olhava-se, mirava-se todo, passando n’um geito febril pelos cabellos e barba, o pente de vulcanite.
E tremulo, tacteando as coisas, dizendo:
—Já venho, o senhor desculpe, eu venho n’um instantinho, desculpe...—Chegou á escada amparado nos moveis, fechou a porta cuidadosamente, e sem phosphoros, desceu a cambalear.
Ouvi o portão de baixo cahir, atirado com estrondo, vozes que se afastavam cautelosas... E fiquei a sós com o pequenito. Então vieram-me á lembrança as vacillações do morgado n’aquella viagem para Lisboa, quando nos tinhamos visto pela primeira vez, o rigoroso lucto guardado por elle em tres annos, a sua indole fugidia, a submissão que a todos mostrava, a sua vergonha entre as mulheres, e do que a lingua do Alvares insinuára.
E ligando aquelles dados ao pequenino annel que lhe vira no dedo, á graciosa silhouette da dama embuçada, e singulares desalentos em que o via mergulhar, adivinhei a coisa toda. Nada mais simples! E para o patetinha que em silencio tasquinhava bon-bons:
—Então Luizito, grande passeio hoje?
Elle disse que sim com a cabeça.
—Gostas d’aquella senhora, gostas?
Mesma resposta.
—É a tia. Como se chama?