—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu cá, sempre na brecha!
—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar, gentes.
—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos. Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha. E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem no Facho de hontem, terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.
Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no jardimzito, povoaram o atelier, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith tinha assistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa. Albano não apparecia, por seu lado.
—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno. E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.
Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal. E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas funestas.
—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão tristes!
—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.
—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...