—Ora! Tenha juizo. Tambem, para que foi cear com Fatime? E rindo:—compraste então os criados; peça bem pregada! Nada de dar cavaco, percebes, nada de dar cavaco... Shut!
—Amo-te tanto, tanto! Aborreço o conde por tua causa. Quando elle apresentou aqui os seus amigos, lembras-te? Trazias as tuas polainas de caça, um nickerbokar de Pool, n’uma bonita e fresca manhã. Iam caçar. Eu fiquei á janella, em roupão, os cabellos despregados.
Bebia devagar, e ao cabo:
—Ah! Esta liberdade inebria-me, meu Deus; não póde ser um crime. Amar um homem que se viu depois de casada!... E muito baixo, phrenetica:
—Os teus cabellos, a tua bocca tão fresca, a tua pelle tão fina! Deixa-me morder, uma dentadinha pequena, para não fazer sangue.—Eu deitava champagne.—Mas perturbas-me, convulsionas-me, Armando! Um beijo: cala-te, cala-te, meu Deus! É preciso que me sintas: quereria morrer comtigo, no mesmo instante, dormir no mesmo caixão, n’um cemiterio de grandes arvores e sombras frescas. Endoudeço, enlouqueces-me!
E com os seus brancos braços de esculptura, fortes, sinselados e quentes, enlaçava-me o pescoço, um rubor febril na face, os olhos afogados n’um languor amoravel. E dizia-me terna, ternissimamente, como só as mulheres dizem na noite de nupcias:
—Tenho tanto peso na cabeça, Armando! Um somno tão grande!...
E toda ella vergava pesando sobre mim, a cabeça decahida no meu hombro.
—Vês como sou tão humilde, tão tua, nem eu sei... uma escrava.
Abandonava-se, suspirando. Os meus beijos desciam pouco a pouco pelo seu pescoço, em direcção ao seu collo.