Quatro Épocas
(CONTADO POR UM MISANTHROPO)
Por detraz da nossa casa, passado o laranjal, ficavam as oliveiras, manchando de pardo o terreno ondulante que uma herva espessa e florida cobria. As primeiras sezões que tive, por um verão de ha quarenta annos, agradeci-as aos calores insupportaveis a que durante uma semana me expuz sem chapéo, sem véstia e sem sapatos. No campo, segundo o costume patriarchal da gente pobre, mal o sino da igreja dá meio dia, o pai senta-se á mesa, defronte da mulher, os filhos á roda, e janta-se. Findo o jantar, a familia levanta-se conservando o seu lugar e cada qual põe as mãos. O pai e a mãi rezam em voz baixa, emquanto os filhos recitam alto a oração de graças pelo alimento d’aquelle dia. «Muitas graças e louvores sejam dadas ao meu Senhor Jesus Christo, pelos muitos bens e esmolas que me faz, tem feito e tem para fazer em quanto fôr servido.
Padre Nosso...»
Depois, o chefe abençôa os pequenos e manda-os tratar da vida; os mais velhos para o trabalho, os mais novos para a escóla. O mestre que tive era um relapso sem emenda. Dia sim, dia não, gazeta sabida! Que jubilo o meu quando, ao chegar com a pasta e a cantarinha d’agua, ouvia pelo taboado da escóla o sapatear rebelde dos rapazes e as vozes bramirem n’um côro estridente que dizia:
—Não ha escóla, não ha escóla!
Iamos em bandos depois, cantando praça abaixo, aos sôcos, aos empurrões e aos berros.
Uma vida de bezerros circulava nas nossas arterias sadias; uns atiravam com terra á cara dos outros, com pedras e com as pastas. Alguns dos mais graciosos arremedavam o mestre, fazendo carantonhas de estoirar de riso. Vários ainda, dos que moravam perto, iam jogar o botão, arrancando sem piedade as marcas das ceroulas e das calças e os botões das jaquetas e colletes. D’uma vez que appareci sem botões, minha mãi deu-me açoites com tão aspero chinello que nunca mais tive vontade de jogar. Aquella sova explica por ventura o asco que ainda hoje sinto pelos jogos—tão abençoada foi ella!
Já n’aquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panelinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.