A minha era composta, do Chico Rato cujo pai era feitor em nossa casa, do Manel da Pomba, um loiro de olhos sinceros, mau como os demonios, e do Zé Estrello, hoje pastor.

Em dias de feriado ou de gazio toca para o olival dançar nos baloiços, fazer caça aos ninhos ou atirar pedrada velha aos telhados das adegas fronteiras.

D’uma vez apanhámos um gato que todas as noites nos ia roubar as crias dos coelhos. Atámos-lhe um baraço ao gasnete, pendurámol-o n’uma oliveira e foi pedrada até que morreu. Eu chorava de pena.

—Oh minha lesma! dizia com desprezo o Manel da Pomba, descarregando ás tres e ás quatro, sobre o pobre animal meio morto.

Mas o que mais nos divertia era o baloiço. Atavamos as arreatas das mulas umas nas pontas das outras; Zé Estrello, que era o mais possante, dava o laço na pernada solida de uma oliveira secular.

As pontas pendentes da corda eram atadas a uma cortiça rija, que servia de assento.

E estava prompto—um! dois! tres!

Começava a frescata.

Durante os cinco ou seis annos que serviu aos nossos prazeres, a velha arvore nem por um instante nos trahiu. A cortiça do baloiço era occupada ás vezes por tres rapazes. Quebravam-se as cordas e vinhamos ao chão; a arvore porém nem nos mettia susto, estalando. Boa e velha amiga que parecia feliz deixando-nos pender dos seus ramos metallicos, como esses cachos vivos de que fallam as historias maravilhosas!...

Uma noite, depois da cêa, estando todos ainda sentados á roda da mesa, meu pai fazendo a voz solemne, disse-me que eu estava um homem e precisava cuidar do futuro. Eu tinha uma forte admiração pelos carpinteiros, n’aquelle tempo. A arte com que elles punham branca, nova e polida uma velha tábua com que o meu canivete nada podia!... A habilidade para tudo ajustar e o gosto com que arranjavam os carros com que brincavamos, arrastando carretadas de trigo, pelas eiras—davam-me um pasmo sem limites e um desejo serio de lhes seguir a profissão.