—Eu cá quero ser carpinteiro! disse eu todo grave.

Meu pai bateu na mesa, e o senhor prior que estava presente, riu da minha ambição.

—Estás tolo, ou que diabo tens? disse meu pai de sobr’olho hirsuto, olhando-me.

—Vaes mas é para o collegio, como os meninos do cirurgião, ajuntou o prior com bondade.

Eu abri os olhos sem entender, ou tremendo de entender. Ir para o collegio, n’uma terra distante onde ninguem me queria, deixar o Manel da Pomba e o Zé Estrello, e a horta, a casa, o olival, o baloiço e a arvore amiga e tolerante? Que? De cabeça baixa, minha mãi não dizia nada. Puxei-lhe a sáia devagarinho, ferido de grande medo:

—Não quero ir, mãi, não quero ir!

Os olhos d’ella fecharam-se, e aos cantos das palpebras comprimidas, lagrimas silenciosas cahiram, de uma saudade que ainda hoje me entristece.

Tinha já nove annos e parti.

A lembrança que no collegio, á noite e após todo um dia de aulas, que a dureza dos prefeitos me enlutava de amargos desalentos, me vinha mais viva, mais inconsolavel e mais triste, era a da arvore velha do olival, que sem queixa me aturára tanto!

Bons tempos da infancia purpureados de risos e cheios do casto aroma da innocencia—que vos não verei mais!...