No collegio, á medida que os annos corriam e enraizava d’essas leaes estimas que servem para toda a vida, as puerilidades da aldêa apagavam-se-me pouco a pouco, como lampadas sem oleo em templos desertos. Da segunda vez que vim a ferias vestido como um pequeno senhor, de luvas e relogio, pareceram-me despreziveis as minhas velhas affeições. Fui uma tarde á escóla de chapéo na cabeça e bengalinha de junco. O mestre tratou-me por senhor e sentou-me a seu lado, córando da superioridade desdenhosa que eu mostrava. Os rapazes ergueram-se respeitosamente como se tivesse chegado o commissario dos estudos. Aquella gentalha de sapatos cardados, véstias de saragoça e camisas de pano crú fez-me nojo, e tive humilhação pensando que fôra assim tambem, por tanto tempo. Lá estavam nos seus bancos de pinho o Zé Estrello, o Manel da Pomba e o Rato, de cabello hirsuto, punhos sebentos e livros amachucados, olhando-me com esses grandes olhos dôces que certos cães d’agua fitam nos donos em os vendo a comer. Pouca gente entrára de novo na escóla. De vez em quando, o mestre batia com a regoa na mesa e gritava:

—Ólá do canto! Temos paulada não tarda um instante.

A casa immunda, cheia de cuspo e papeis rasgados, era de uma nudez ignobil.

—Aqui não aprendem francez? perguntei eu com uma superioridade que os meus dez valores na disciplina não justificavam muito.

E n’essa noite á cêa, em quanto meu pai olhava para mim n’um extasi e a ternura de minha mãi orvalhava de lagrimas o casto lenço branco que se lhe encruzava no seio, disse passando a mão pela testa e cabello, como via ás vezes fazer aos de Mathematica, no collegio:

—Lá fui á escóla, fazer o meu bocado de troça.

Aos quatorze annos estava um homem, espigado e pallido, com as olheiras symptomaticas da transição de idade. Era bonito e meigo, com mãos de mulher que veios azues reticulavam, como em certos marmores sagrados. As gengivas tinham-se-me descarnado um pouco, fazendo mais compridos os dentes.

Ardia na aspiração intensa de usar cabello crescido e fatos de casimira clara. O uniforme negro do collegio e o cabello á escovinha da ordem, torturavam-me o orgulho de rapazinho elegante. O meu grande desejo era ser externo, fumar e ir ao theatro. Um de Introducção já crescido, cahira uma vez d’um cavallo e a queda fizera-o idolo da rapaziada. Quem pudera tambem gozar de semelhante triumpho!—pensava eu por vezes, sentindo um ciume ardente do heroe. Uma magica das Variedades, onde fomos todos n’uma noite de carnaval, patenteou para mim o amplo scenario de um mundo com que o meu temperamento nervoso já sonhára confusamente. O de Introducção emprestára-me um binoculo, o que me permittiu observar meudamente as decorações, os figurantes e os camarotes. As bailarinas e os deuses vestidos de malha apertada, que lhes desenhava todas as linhas dos corpos, fizeram mo palpitações de arterias e seccuras de garganta. Havia um principe loiro de uma belleza sem rival. Amei-o cá fora, annos depois, quando já perdera a frescura e subira em preço—ai de mim! Era uma actrizita de dezesete annos, bocca vermelha e fallas musicaes, vestida de rapaz. Nada mais gracioso que os seus pequenos pés ligeiros que pulavam ondas, rochedos, abysmos e perigos—tudo de lona, é claro. A sua cinta era fina e flexivel, e as ondulações do seio scintillavam n’uma armadura de galão, ás escamas. Essa noite foi uma febre para mim, impetuosa, allucinada e tremenda. Que revolta, Santo Deus! Estendido no leito do dormitorio, onde seis ou sete dos meus condiscipulos tranquillamente dormiam, eu experimentava dentro de mim o quer que era de um desabamento. Faltava-me o ar e tudo me andava á roda. Que miseravel aquella clausura regulada a sopa, vacca, arroz e duas peras verdes! E dez horas de estudo, madrugadas peniveis, reprehensões, oppressões e malquerenças!... Sim, para além do collegio com a sua monotonia de claustro, as suas apostillas, as quintas, os domingos de folga e a roupa lavada duas vezes por semana, outra existencia auriflammante tumultuava em amores, em pompas, em perigos, e doidas phantasias preconcebidas e logo realisadas. E aquelle principe loiro, aquellas fadas azues, e as apparições que o magnesium idealisava de uma fascinação irresistivel, viviam, cantavam, amavam a seu bel-prazer assim vestidos, lançando á roda o cheiro da carne viva e sadia que chama os famintos de deleites, e faz rolar as libras dos perdularios. O candieiro apagou-se por noite velha. Ergui-me cautelosamente, em camisa de dormir.

—Que anda ahi? perguntou com voz de porta-machado o Carvalho, prefeito, que fôra de lanceiros.