—Homem, ás vezes...

—E então? fez Manoel do Cabo, á espera que elle dissesse tudo.

Padre Nazareth descreveu então n’uma linguagem arrastada e molle a rodilhagem em que se via o convento e os objectos do culto.

—Vossê bem sabe, homem. Não ha frontaes, nem banquetas, nem toalhas, nem alvas, nem vestimentas para os santos. É uma vergonha! accentuava com força. Tudo que mette nojo! Aquellas galhetas, aquella patena, as duas sobrepellizes, as alvas, tudo aquillo, senhores, tudo aquillo! Além d’isso, não sei se vossê tem reparado. Uma invernia tesa, temos a abobada em terra. Sabido! Vossê conhece-me. Sabe que cousa a meu cargo, tem de andar limpinha, arrajadinha. Senão passe muito bem...

Ora se o Senhor dos Passos... vossê entende?

—Tinha hoje pensado n’isso mesmo, observou Manoel do Cabo, que medira o alcance da patifaria proposta.

—Ah, tinha? Entendido! E n’uma expansão:—Assim muda tudo, vossê entende. Quando correr que o Senhor dos Passos chora, não faltará cão nem gato que não queira vêr; calcule as esmolas e prendas a seguir. Vossê entende... São velas, azeite, tunicas, castiçaes, dinheiro, legados por testamento, o arraialito todos os annos, missas aos centos e gorgetas de estalo. Concerta-se a igreja, aceia-se, pinta-se, caia-se, vossê entende. No verão, bailarosca na cerca, fogo de vistas, gente assim...

E com os dedos em pinha, fazia movimentos de agglomeração opprimida.

—Sim senhor, sim senhor, resmungava Manoel do Cabo.

—Ahi pela quaresma, faz-se procissão até á villa, missa cantada, o costume, sermão... E vossê verá, que se despovôam ahi as aldêas todas para a romaria. Selmes não falta.