—Olha quem, Selmes! Aquillo são brutos como jumentos.

—A Vidigueira, a Cuba, Villa de Frades... Vossê entende.

—Essas não comem, parece me cá.

—Qual! Qual! O povo é crente, o povo tem muita religião ainda. Veja vossê, quando levam a Senhora das Reliquias, pelas seccas, alli na Vidigueira. Veja! É um choro, que nem que as moessem de pancadaria. Que nome tem aquillo senão fé? E aprumando a estatura desgeitosa, de uma obesidade glutona, invectivava:

—Sim, que nome tem? E não é tudo. Vossê verá, que as mais romarias hão-de morrer por causa da nossa. Homem, sempre é um choro de Senhor dos Passos. E depois, os sermões. O que se póde dizer da imagem—vossê entende. E o dinheirão nas festas... Vendem-se estampas, bentinhos, medidas—um chuveiro! Isso fica pr’ós alfinetes da Escholastica. E as fogaças, e tudo!...

—É uma rica idéa. Mas se entram a fallar, se o vigario percebe...

—Ora, deixe! A elles tambem lhes faz conta. Em Beja fazem o mesmo, os taes letrados.

—Bem. Eu cá, prompto! Póde chorar em querendo.

—E aproveita-se uma bella occasião agora. Vossê sabe que a mãi do fidalgo vem passar um mez para a horta. Grande devota, segundo me contaram. Em Lisboa, diz que leva a vida pelas igrejas a commungar, a confessar-se, a encommendar reliquias e bentinhos. Excellente senhora, e para mais, oitenta annos! Veja vossê...

—Está na conta.