—Como anda adoentada, vem a mudar d’ares. O sitio é bello, um ar na propia, verdura... Faz-se o milagre: se melhora, corre logo uma fama de seiscentos demonios.

—Não melhorando... tumba!

—É capaz de legar rendas para o culto. E vossê entende.

—Entendo. Em ambos os casos, lucro. E quando chega?

—Mesmo depois d’ámanhã.

—É preciso então mandar acear a igreja, que parece um chiqueiro, não offendendo quem está.

—Claro que é preciso! Amanhã trata-se d’isso.


No dia seguinte ia grande faina no convento.

O hortelão varria do laranjal as folhas cahidas, os moços aparavam o buxo das estreitas ruas do jardim, as mulheres caiavam os muros da cêrca. Ao mesmo tempo, Manoel do Cabo mais a filha, empoleirados pelos altares da igreja destruiam com os varejões enormes, que serviam pela azeitona, as pontes suspensas e negras que alguns milhares de aranhas haviam fabricado, em pelo menos vinte annos de secreção. Os santos tinham sido apeados dos nichos e cuidadosamente lavados n’umas poucas de aguas. A cada passo, a Escholastica passando o rodilhão molhado pelas barbaças de um martyr, dizia compungida: