—O santo me perdôe, mas estava que mettia nojo!—E em cóleras de christã fervorosa:
—Estas bilhardeiras da horta nem ao menos agua teem, p’ra lavar os santinhos! Velhacas!...
—Oh rapariga!... dizia o sacristão reprehensivo. Foi impossivel arrancar ao seu nicho, o Senhor dos Passos. Era uma imagem maciça e tosca, talhada quasi a machado, a quem faltavam dois dedos. Tinha a cabeça quadrada de um idolo pelasgico, marfim amarello salpicado de feridas negras, cabelleira comida de traça e encimada de um resplendor de lata, dentado e torto. A tunica cahia pedaços, n’uma miseria mendiga, d’onde sahiam tornozêlos gigantescos e pés formidolosos.
—Mette respeito! dizia a Escholastica molhando o esfregão no alguidar.
Os cuidados de Manoel do Cabo convergiam especialmente sobre a capella do Senhor, soturna e alta, com columnellos de talha e esculpturas selvagens representando seraphins e emblemas da Paixão. Do fecho do arco, cahia uma lampada de chumbo por tres cadêas de ferro; o pulpito ficava defronte com balaustrada negra e azulejos no portal; e traçando caminho de capella para capella, uma linha de sepulturas razas arremendava de pedras alvacentas e tortuosos epitaphios, o ladrilho esboroado do pavimento.
Era espaçoso o camarim da imagem, posta ao través para ser vista em toda a sua dimensão. A parede do fundo, pintada de judeus colossaes ornados de chifres e dentes de javali que os maraus arreganhavam por modo insolito, ensombrava-se de manchas limosas fazendo claros na quadrilha de algozes do nazareno.
—Eh malditos do diabo! fazia a Escholastica esgrimindo figas sobre a cafila, em quanto gravemente o sacrista dava reviravoltas á cabeçorra do idolo, a vêr se a desaparafusava do tronco. E quando viu a filha descer para renovar a agua das lavagens, Manoel do Cabo destroncando a cabeça santa, poz-se-lhe a estudar cuidadosamente a anatomia. Terminava ella n’uma especie de parafuso tubular, tapado por uma rolha. Manoel do Cabo puxou a rolha para si e deu com uma concavidade que se escavava na cabeça, fazendo n’ella como um escondrijo.
—Cá está a marosca! resmungou, torcendo a venta de um modo pujante.
Deitou agua no bojo e vascolejou. A agua tingiu-se de vermelho.
—Percebo! disse elle. Não precisa mais. Tornou a metter a rolha no tubo de parafuso, lavou a fronte do santo, e cuidadosamente restituiu a cabeça cheia de agua ao seu lugar. Alcançára de velhas devotas uma tunica de paninho rôxo, e com esmolas fizera concertar a enorme cruz de pinho que de longos annos cahia a um canto, alliviando o semita do seu peso infamante. Quando a Escholastica voltou, já o Senhor dos Passos estava vestido e paramentado de novo, cruz ás costas, a disforme cabeça livida pendente sobre os seios, cabelleira esguedelhada nos hombros e o resplendor por cima, como se fôra uma mão fatidica impondo condemnações. Com ramos de cypreste juncaram o chão da capella. Através das ramarias esbugalhavam-se os olhos dos phariseus, com um ar de troça que incendia as iras da Escholastica, vindo porém a achar echo no coração do sacrista. Emfim, a mulher do hortelão trouxe flôres e verduras, que foram postas em symetria no altar, dentro de canecas de barro e bilhas vermelhas, de Extremoz. Accendeu-se a lampada da capella, e diante da gente da horta que viera recolhidamente vêr os preparos da igreja, a Escholastica leu em voz alta no seu livro de missa, a ladainha—que era muito bom para ganhar indulgencias.