Ao cahir da noite os preparativos de recepção da senhora fidalga estavam feitos; a residencia esfregada e as louças brilhando nos grandes armarios do refeitorio; enormes camas de pau santo cobertas de colchas de damascos crespos, rescendendo á alfazema das gavetas e ao linho de Guimarães; paineis de santas risonhas com mantos côr de laranja e maxillas de carnivoro; os tamboretes em linha mostrando a pregaria luzente; e um velho sophá de medalhões de coiro ao fundo da sala, de cujas paredes pendiam em molduras castanhas, lithographias representando a vida de Dona Ignez. Na horta o mesmo aspecto cuidado e festivo—moitas de hortensia á entrada, ruas de loureiros e chorões, caracoleiros e heras vestindo os muros, os tanques limpos, aparada a relva do laranjal, dhalias escarlates resahindo dos tufos verdes da contramina, aboboras e melões de guarda em linha no telhado do chiqueiro, espantalhos novos pelas figueiras...

—Tudo que nem um brinco! dizia a Escholastica á visinhança, descrevendo as canceiras que tivera.

Á noitinha appareceu padre Nazareth, chapéo para a nuca, todo encalmado de subir as escadas do balcão. Vinha mal do estomago, cheio de seccuras, a face macilenta, ventre alto, os intestinos trovejando.

—É dos pimentos, dizia, é dos pimentos de conserva.

Tinha levado o dia mettido em casa, em mangas de camisa e chinelos, com calma. Fizera suão; com as queimadas os ares andavam turvos e as bestas sem força para o trabalho.

Demais um desavergonhado de Selmes recusava-se a pagar a meia moeda que lhe pedira ahi pela esborralha. Corja de ladrões!

Manoel do Cabo philosophou então:

—Que hoje em dia, o mundo ia cada vez peor. Todos cuidando de atafulhar o bandulho, e o diabo que levasse o nosso amigo e compadre.

Deleitava-se intimamente o sacrista, em sabendo que alguem caloteava padre Nazareth, um fona incapaz de deitar osso a um cão.

O padre passeava d’uma banda para outra mãos atraz das costas, um livôr bilioso na pelle. E disse sem levantar a cabeça: