—Sabe que a velha chega ámanhã?

—Assim ouvi dizer.

—Fez aquillo?

—Todo o santo dia andei mal-a rapariga a tirar estrume da igreja. Aquillo não é dizermos que estava porca, senhores, mas tenho já visto malhadas de cabras mais limpas. Têas d’aranha então, capazes de cobrir o mar. Em fim, ao menos aceada, ficou. Tudo varrido, muita flôr nos altares, azeite nas alampadas, tunica nova no Senhor dos Passos. É imagem p’ra metter um bocado de respeito. Sempre lhe digo que Padre Eterno era homem tamanho da torre de Beja, se tinha parecenças com o senhor seu filho. Alentado, palavra.

—Mais respeito com essas coisas, senhor Manoel do Cabo, mais respeito com essas coisas, advertiu padre Nazareth que tinha lobrigado a Escholastica entre portas, á escuta.

E com um formidavel arroto abriu a velha homilia sobre o temor de Deus e os mysterios da Trindade—Padre, Filho e Espirito Santo.

—Malditos pimentos, dizia, malditos pimentos! Deus era o espirito creador, dotado de todas as virtudes e omnipotencias. Era o infinitamente bom, o infinitamente grande e o infinitamente piedoso. Para impôr-se á limitada comprehensão humana, fizera-se homem em seu filho, que padeceu e morreu...

—Tudo para nos remir e salvar! ajudou de dentro a Escholastica, que sabia as prosas do Novo Catecismo de Doutrina.

—É tal e qual, fez padre Nazareth. E vendo a rapariga de braços arregaçados pediu agua, para lh’os vêr de perto. Quando a Escholastica se afastou para encher o copo, o padre voltando-se, disse em voz baixa:

—É preciso dar exemplos, homem!