—Albertina! disse elle. Voejavam-lhe diante dos olhos, abelhas de oiro, em circulos febris. Os seus dedos tocaram n’uns cabellos, depois um bocado de pelle setinosa. Ergueu-lhe carinhosamente a cabeça pelo queixo, ajoelhára-lhe aos pés, apoiando-lhe os braços nos joelhos. E n’um tom de voz, em que havia o uivo do desejo refreado, dizia-lhe:
—Pateta! Ouve.
E aos beijos, com palavras entrecortadas:
—Como d’antes, minha filha, como d’antes...
Retesados, os seus braços enlaçavam-na pelo busto, com uma ancia que fazia medo.
D’alli a nada, Albertina terminava com voz plangente o romance do ultimo semestre da sua vida. Era pura como outr’ora, apesar de tudo, jurava ella, expondo pelo quebramento da postura na ottomana, o onduloso desenho dos quadris e a linha elastica do collo todo abotoado nas costas, cingido n’um corpete de velludo bronze e aberto no seio em fenêtre, d’onde espumava a gargantilha, n’uma alvura de nymphêa.
Se elle soubesse!... No theatro e na cidade sentia-se fluctuar n’um abandono glacial. A adulação e os bouquets com que lhe atapetavam o caminho, causavam-lhe a nostalgia da sua pequena cidade natal. Quem se interessava agora por ella, quem? Ás vezes, olhando a gente que passava nas ruas, acotovelando-se com pressa de chegar cedo, e não querendo saber dos que paravam no caminho, sentia um medo funebre invadil-a toda. Se morresse, quem lhe fecharia piedosamente os olhos e a acompanharia ao cemiterio? Que olhasse pelas janellas d’aquelle segundo andar a cidade, viva em baixo e a róda—transeuntes cacheticos e ruas tenebrosas, mesmo á claridade do gaz. Que triste era tudo! O primo Jorge deixava-a fallar á vontade, aninhado junto d’ella, como sob a tepidez de uma aza de cysne, e tendo uma das mãos em viagem touriste pelas colinas, de que o decote triangular patenteava o sopé, de uma amenidade inteiramente grega.
—E que mais, que mais? dizia elle, gaguejando.
Albertina mirava-o com esses olhos velados de reptil, que exercem em certas organisações nervosas invencivel fascinação. A curva do queixo era redondinha e branca, e subia n’um espraiamento suave até ao lobulo escarlate da orelha, onde um diamante faiscava como pupilla ciumenta. Parecia bonita sob aquella excitação, com os olhos fendidos a nankim, as olheiras ensombradas a bistre, e verniz labial do mais caro. Todo debruçado, o primo Jorge inhalava os perfumes tepidos da sua carne, olhando-lhe, nas pennugens da face encarada de perfil, os corpusculos suspensos da veloutine que a alabastrisava. Aquella absorpção lethargica e a excitabilidade excessiva que lhe viera, deram-lhe um quebramento dorsal, uma lassidão de musculos e o desejo incoherente de se abandonar n’um espreguiçamento eterno, sobre a flaccidez eburnea das espádoas. Sentia um peso de palpebras langoroso e febril, que não era o somno.
—Que horas são?