—Oito.
Eram dez e meia dadas. Albertina fallava baixinho, como receando acordar um baby, e a sua voz de estranha doçura, vinha, filtrada por um secreto medo, anesthesial-o como esse insidioso gaz hilariante que traz a morte entre risos.
—Amava-o, tinha-o sempre amado como em criança. Por nenhum homem mais sentia aquella attracção, aquella confiança e a intima alegria de lhe fallar sem receio. Porque fugira ella de casa e se afastára da profunda ventura de ser d’elle, mediante os latins de um padre? Mas não se separariam nunca mais, não era verdade? Nunca mais! Seriam como um irmão com uma irmã, ella dizendo-lhe a sua vida sem omittir o episodio mais vulgar, elle contando-lhe tambem au jour le jour as suas esperanças e os seus desalentos. E seria ella quem lhe faria tudo, quem o trataria se estivesse doente, quem lhe daria conselhos e lhe engommaria as camisas, obscuramente, sinceramente, sem o menor resquicio de peccado entre os dois. Os perfumes que pelo decote vinham do seio d’ella embriagavam-no; sentia-se penetrado por aquelles olhos de salamandra, como velados por uma nictitante subtil. Havia dois mezes que tinha entrado na chamada grande vida, vida realmente bem pequena, que consiste em um sujeito estragar o estomago nos hoteis, dizer asneiras n’uma tabacaria, n’um café ou no camarim d’um actor, e arranjar pelo attrito das solas duras e das convivencias safadas, ao mesmo tempo uma collecção de callos e um museu de vicios pelintras.
Estava no primeiro andar do Alliance, quarto e saleta com porta independente, frequentava os theatros e batia em tipoia pelo Chiado ás quatro da tarde, mostrando no assento dianteiro os bicos dos enormes sapatos de polimento e a sêda côr de perola das meias esticadas. De resto, fazia um gasto decente no elemento hespanhola, sem indagar se lhe vinha directamente das Caldas ou da agencia de criadas. E á noite, descendo o Chiado com a gola do carrik levantada, sentia-se appetecido pelas senhoras pallidas que iam pelo braço dos maridos cacheticos ou condescendentes, com o adulterio nos olhos. O seu ar de camponio de bom sangue fazia impressão: era desejado. E como tinha dinheiro...
Extincta a phase nevrotica com que é uso iniciar-se um bourgeois gentilhomme na roda galante da juventude oiro e azul, o primo Jorge entrou a vêr um pouco n’esse como encandeamento em que se deslumbrára. Mesmo entre vadios é forçoso ter posição. Já hoje se começa a penetrar um pouco pela vida intima de cada qual. A Jorge bastaria o ser rico ou parecel-o—uma amante sempre dá outro ar, outro tom e outra consideração. Foi quando recebeu a carta de Albertina. Que diabo! Já lhe tinha feito a côrte, de mais a mais. Eram tres da manhã quando se despediram.
Ella, envolta n’um grande penteador de cauda, tremia de frio, offerecendo-lhe a testa ao ultimo beijo, pés nús sobre a felpa cariciosa e fofa do tapete. Fallavam muito baixo, com singulares fulgores na pupilla e uma meiguice de termos, que lhes vinha do orgasmo nervoso em que estavam.
—Mas és lindissima assim, dizia-lhe Jorge, cingindo-a pela cinta e beijando-a na bocca.
Albertina tinha um riso delicioso, gulosamente recortado pela dentadura, de gata irascivel. E mordaz:
—E aquella tua tirada de ha pouco... disse ella surprehendendo-o vencido, e batendo-lhe na face com o ar petulante, que tantos applausos lhe rendia no palco.
—Moralista! dizia zombeteira. Todos o mesmo.