—Ora isto, ora isto!
Elle não dizia palavra; apertava-a na cinta uivando com fome, e beliscando-a na redondeza dos quadris e na curva marmorea das espádoas. A sua exaltação crescia, e luctava a serio, com arrancos de besta na quadra fatal do cio. E erguendo de repente o braço forçou-a a voltar a cabeça para traz, despenteando-a um pouco na frente.
—Mau! dizia ella. Rasgar não vale! Olhava-o com os seus olhos velados que tinham uma condensação de amor voluptuoso, essa expressão parada e lubrica que nasce dos espasmos profundos e desolantes.
O João dobrou-a vigorosamente, como se quizera partir-lhe os ossos.
—Cala-te, cala-te! dizia-lhe.
Os seus olhos resaltavam, havia um arripio de fibrilhas nos angulos das orbitas e sentia-se o estertor da sua respiração estrangulada. Então curvando-se sobre ella, com os seus labios ardentes sorveu-lhe a bocca palpitante, e furioso tirou-lhe o lenço para metter-lhe as mãos no seio. Ao contacto das epidermes a descarga dos fluidos deu um fremito de corpos, e Carolina esticando os braços atirou-lhe as duas mãos aos hombros, murmurando:
—Oh! matas-me...
E como na corrente murmura de um rio que vai fugindo, entregou-se-lhe toda, sonhando com esses fiords serenos e brancos, das regiões onde os extasis, como as noites duram mezes, sempre illuminados por um iris de aurora polar.
João agarrou na rapariga ao collo, como a uma criança, foi pela rua adiante ao encontro de Marcellina, que não estranhou se houvessem demorado. O João dava-lhe quatro pintos de commissão; era para comprar aviamentos para um vestido de fazenda, azuloio, que tinha ganho quando fôra do alferes Sarmento. Andava precisada de botinas; as dos domingos, de polimento, tinham uma fendasinha no joanete e via-se a meia. Não podia ir a parte nenhuma que se não envergonhasse. Fallára n’isso ao João, mas elle enfadava-se. Já lhe tinha dado para umas camisas e para a ajuda d’uma medalha, e certas miudezas, lenços de sêda, um casaco de pano bordado a trancinha, que tinha comprado á Francisca adela, com geito no olho, um pouco gaga. Fora a sua tagarellice, mal apanhou quem a escutasse, entrou a estafar a paciencia alheia, de commentarios nunca levados ao fim, historietas afogadas no prologo e logo preferidas a outras não menos interessantes.
—Ai filhos que se vai fazendo noite, negro tudo como breu.—A mulata devia estar em cuidado já. E não comprára os carapaus para o bichaninho, o Pimpão, eram mais de sete horas! Não tinha sustancia no estomago, mas havia sua vontadinha de comer. Tivera fressura para o jantar, umas ervilhasinhas com presunto que as podiam comer os anjos. Mas a fructa cara; a hortaliça estava para a gente rica. E então as mulheres da venda pelas portas; uma pouca vergonha! Quarteirão de laranjas, dous tostões! Nunca se vira tal n’esse mundo de Christo. É com a guerra, dizia, é com a guerra. E que andavam os papeis cheios d’essas cousas, mais de duas mil pessoas mortas cada dia na Estranja, a tiro. E que Deus nos livrasse, que Deus nos livrasse, cá de levantamentos. Quando fôra pela revolta do quatro, ainda os dois não eram nascidos, tinham corrido rios de sangue, gente fugida por esses campos, até os santos andaram n’uma alhada. Nosso Senhor nos perdôe pelas suas cinco chagas! E persignava-se dando beijos na unha do pollegar, com ruido. Sahiram do cemiterio. Carolina não dizia nada, apertava o braço do aprendiz. A velha estava mesmo a cahir, e queixava-se. Estavam-lhe lá por dentro a resmoer, a resmoer; a modos que cousa assim de bicha. Tinha tomado as pevides de abobora—nada de resultado! Ai, mas ia mesmo mortinha; e que fossem enxugar uma pinga, com uma iscasinha semelas... Já não estava em idade de folias, bem lh’o estava dizendo aquelle esfalfamento. E os seus intestinos roncavam ameaçadores. Tinha sina de morrer cedo; então!... Toda a sua gente marchára ainda nova. Seu pai, um homemzarrão com’a um raio, tinha sahido bom, com uma capa de briche novinha, para casa do regedor, e á noitinha dá-lhe a febre amarella, e agora o vereis a vomitar... mandaram chamar o medico Cançado—parecia-lhe que o estava a vêr—luvas de casimira, um caixa-d’oculos corcovado, barbicas loiras, arrastando d’uma perna...—Receitou para alli umas berundangas, ella foi á botica, noite fechada. Enterros por cada canto, padres a cantarem responsos. Nem ella sabia dizer bem. Quando chegou a casa, a mãi estava n’um berreiro:—Ai meu home da minh’alma! Ai meu rico amor do meu coração!... E escarapellava-se pelos cantos em saias de estamenha, sapateando as grossas solas cardadas pelo sobrado. Sua mãi fôra lavadeira da infanta, muito estimada das açafatas e aias; levava e trazia segredinhos, bilhetinhos, do Ramalhão para a Bemposta e da Bemposta para o Ramalhão. Chamavam-lhe a Angelca; um cabo da guarda apaixonára-se pelos seus bellos olhos e cantava-lhe modinhas. Mas ella, esperta que tinha raio!—moita carrasco! D’uma vez n’uma deveza, dois ganhões atiram-se a ella. Mas éna pai!... se vossês querem vêr o que era dar lambada, com os ceirões; andava tudo n’uma dobadoura, quando veio gente que apaziguou a faina. Quando não, era mulher capaz de dar cabo d’elles. E havia de se ralar muito. Emfim, filhos, emfim era de faca na perna, resumia com pompa, cheia de vaidade.