—Manda Nosso Senhor os bons á sua santa vista, que dos maus nem quer saber o diabo. Uma tarde minha mãi appareceu com tosse, tossinha de gato engasgado, dôres pela espinhela, calafrios... veio-lhe uma pulmonia da fortuna... pulmonia foi ella que a raspou até hoje. Foi em quinta-feira de Corpo de Deus, moravam ahi para as bandas da Sé, n’uma barraquinha velha; todo o dia a musica a tocar; tropa para cá e para lá; a pretalhada titi: titi: taratá! Gentalha de pagode, o rei, os ministros, a procissão, o S. Jorge; e a mãi para alli amortalhada em chita velha, á espera do padre, para ir para debaixo da terra. Nem um coto de cera, nem uma fita, nem um véo de escumilha. As bilhardeiras das fidalgonas, em quanto a Angelca pôde servir-lhes de alcoviteira, fizeram-lhe festa, sim senhor. Mas quando fechou o olho—diabo que te carregue! São uma cousa que eu cá sei, aquellas peças. Não é lá dizermos, andam na berzundella um dia ou outro, mas sempre, sem nunca parar.—E cheia de reticencias procurava incitar o interesse. Baixava a voz, com uma confidencia obscena em que figuravam infantas de capote e lenço, passeando pelo Campo de Sant’Anna com o Chico Bellas, charuto na bocca, uma gazua no cinto do vestido e viva a reinação!... E fulana e fulana que ahi estão casadas com sicrano e sicrano, sonsinhas d’uma figa, já se não lembravam de quando escreviam cartas a este e aquelle, para que viessem ás tantas horas... sempre se viam cousas n’este mundo! Uma lastima, filhos, uma lastima! E que havia secia que era mesmo para alli, para quem queria vêr, na cocheira com os trintanarios. Conhecia boa meia duzia d’essas typas; algumas eram damas do paço. E que o mundo era todo assim. Mas o que a raivava era quererem ser grandes santarronas, que nem quebram um prato, e no cabo deitavam abaixo a cantareira! Iam passando diante do Pescada. A casa estava cheia de gente; rumores de guitarras bordavam finos arabescos sonoros, de fados corridos; vinha lá de dentro um borborinho de gente avinhada; o fumo dos cachimbos azulava o ambiente, empestando, e grossos risos estalavam brutaes entre historias alegres do arraial, e largas digestões de mexilhão e pimentos. Via-se a tia Lauriana, papuda e quente, encostada ao balcão, entre bojos de garrafas pretas e taboleiros de queijos frescos. Um aguadeiro deitava ao longe o pregão monotono; para o interior da cidade, rumores de carruagens amorteciam gradualmente, na morna somnolencia quebrada da hora. O João lembrou que fossem comer alguma cousa. E mais aberto com as mulheres contava os seus appetites e as suas valentias; d’uma vez tinha tosado um gajo, na Perna de Pau; já aquillo chuchou cascudos!... E vai quando mal se descuida, o outro tinha passado as palhetas.

Era agora d’uma sociedade Esperança e Harmonia; tinham alugado casa na rua do Quelhas e tratavam de arranjar philarmonica; elle tocava pratos. Havia um barbeiro na rua das Trinas, o Lopes, que fazia comedias, gallegos que namoravam as sopeiras e cantavam versos da sua terra: era reinadio! E elle fazia de policia, tinha comprado uns bigodes de crepe... E dizia as suas boas intenções—em que se havia uma pessoa de entreter; andar para ahi perdido de bebedo? Assim sempre era mais decente. E que ella Carolina, havia de ir ás comedias; não era verdade? Para o verão queriam dar bailes campestres n’uma horta, com balões de côres. Iam entrar no Pescada, mas Carolina puxou a manga do aprendiz, pediu que não fossem para alli; tinha lá o pai, se elle visse, santo Deus, era capaz de fazer alguma.—Aquillo, juntava Marcellina, em estando pingado, era o diabo mais ruim da christandade. E prudente aconselhava o Manel do Altinho; ia alli gente mais pacata, havia quartos particulares, seus reposteiros de chita, um rico cozinheiro, e em quanto ao sumo, era por conta do lavrador, sem confeição. Uva e mais nada! resumia.

Carolina sorria benevolente, sem dizer nada. Entraram no Manel do Altinho, para um quarto. O João bateu com ostentação de ricaço, na mesa, perguntou ás mulheres o que queriam; a Marcellina appetecera um bifesinho, Carolina não tinha vontade e o João quiz salada de camarões. E rindo todo córado, olhava para a pequena, abanando a cabeça, e dizia vagamente para achar palestra:

—Com que sim senhor, com que sim senhor! E confidencialmente, inclinado para Carolina:

—Não come mesmo nada, mesmo nada?

—Mesmo nada, dizia ella sorrindo, embebecida n’elle.

—Nem tanto como isto? e mostrava a ponteira da bengala.—Hom’essa! Olhe que entisica.

Piscava o olho. Riam baixo.

—Velhaco! segredava ella vermelha, tocando-lhe a face.

—Pois ha-de comer, ha-de comer por força!