A Marcellina um pouco afastada, tinha adormecido.

O rapaz chegou com a cêa. Carolina gostava mesmo muito dos camarões. E bebia, toda palreira já.


Ao outro dia o aprendiz appareceu mais tarde na loja, tresnoitado e cheio de fadiga. Era a primeira vez que elle faltava aos seus deveres e o patrão, o Ferreira, velho direito e tostado, physionomia vulgarmente honesta, nada lhe disse. O João era d’estes filhos que os paes, viciosos e desleixados, abandonam pequenos, a uma vadiagem perigosa. Aos dez annos metteram-lhe umas cautelas na mão. De manhã cêdo, ainda escuro, ia descalço e cheio de lama ás redacções, comprar os jornaes do dia, n’uma pasta sebenta, que encontrára n’uma escada. E caminho dos bairros distantes e ainda adormecidos sob a luz vacillante dos lampeões, lá ia apregoando o Diario de Noticias e o Popular que sahiu agora a dez reis. Gastava assim a manhã. Algumas vezes, pequenino e todo roto, a carne suja transida de frio, deixava-se dormir nas escadas, com a pasta por travesseiro. E esquecia-se no somno, da venda dos Populares. Recolhia a casa carregado, com os jornaes intactos; davam-lhe tareias monumentaes, com uma corda molhada, nos rins. D’uma occasião perdeu as cautelas, pôz-se a chorar na rua, cheio de medo. Quem passava queria saber o que era; elle, soluçante, dizia a sua desgraça, estorcendo as mãos. Alguns davam dez reis. Mulheres de ricos vestidos de cauda, compadeciam-se:—Coitadinho, coitadinho...—As crianças olhavam-o commovidas, esmolando-o. Um velho alto, barba toda, de bengalão, ao passar disse azedamente:

—Parece impossivel que a policia consinta este desaforo, n’uma cidade civilisada!—E elle envenenava o seu animo n’uma afflicção profunda, expressa em lagrimas sem remedio. Ninguem tinha achado as cautelas; ia passando cada vez menos gente, menos gente; perguntava a todos; uns riam-se, outros diziam que não, alguns nem respondiam: todos iam andando! As lojas fechavam: uma tristeza parda fazia-se na rua, obscura e fria. Os pianos choravam, nas salas mediocres dos terceiros andares, velhas romanzas de Bellini e Weber, em desafinação sentimental, e através das janellas unidas, vozes de meninas lyricas diziam em italiano barbaresco, affectos candentes de heroinas tisicas, com gestos cavos e ballatas entorpecedoras, cheias de peccado e offensas á moral publica. Elle sentia no meio da felicidade dos outros, pesar-lhe a sua miseria, como um globo de chumbo do pesa-mundos.

Era bonito e loiro; os cabellos crescidos, annelados, revoltos e cheios de terra, davam-lhe uma doçura tranquilla e casta, cheia de encanto e innocencia, o ar d’um leãosinho amamentado n’um viveiro. Tinha nos olhos um azul escuro de saphira, de uma profundeza de Bambino, no fundo dos quaes se sentia dormir a sua almasinha angelica, soffredora e crystallisada, como uma fina joia, desconhecida e brilhante. Não conseguira fazer com as esmolas nem metade do custo das cautelas; todo o mundo era feliz e sorria; muitos gastavam em ninharias, em bonecos e em fitas, um dinheiro louco. Só elle não tinha ninguem que lhe désse o quartinho dos seus bilhetes perdidos. Mas um homem vinha envolto no seu casaco de inverno; elle chorava! Encheu-se de valentia e chegou-se ao transeunte:

—Meu rico senhor, começou, eu tinha umas cautelas, que meu pai me tinha dado para vender. E vai, alli na calçada dos Caldas, perdi-as, meu rico senhor. Se eu não levar o quartinho, meu pai é capaz de me enforcar, meu rico senhor. Tenha compaixão...

—Passa fóra, gatuno! O que tu querias n’esse espinhaço bem sei eu.—Elle recuou aterrado, convulso.

E varado por aquella violencia ficou soluçando no meio da rua solitaria.

Se fosse para casa, o pai, um pedreiro incorregivel e bebedo, tinha-lhe preparada a corda, n’um alguidar cheio de agua. Lembrava-se que a mãi, triste creatura amarella, resignada, loira e cheia de privações, era meiga para elle e clemente, occultando-lhe as faltas, vestindo-lhe a nudez com os seus trapos, contemplando-o em certas noites com um amor, uma tristeza e uma suavidade, toda feita de sacrificios, de dôres e apprehensões. Essa pobre mulher imploraria de joelhos o seu perdão, quebrando nas suas costellas, as pancadas que o pedreiro atirasse ao filho, calada e paciente, de uma humildade evangelica e de uma vileza sublime! E uma idéa cortava-lhe de repente este referver de recordações, de vacillações, de receios—se elle não fosse para casa? A tunda adiar-se-hia para o dia seguinte com accumulação de juros; a mãi, tão mesquinha e tão boa pagaria por elle, levando puxões de cabellos, picadas com alfinetes, sôcos pelo vazio e pimenta pela bocca, que o pedreiro, em estando com ella, era um dragão em casa. A visinhança ás vezes apitava; elle quebrava vidros, dizia improperios, atirava-se á patrulha, á dentada, como um damnado. Era no inverno, altas horas. Começou a chover, a chover. O vento encanado pelas ruas, ao longo das altas casas, agitava os lampeões com estralidos seccos. Dois ou tres coupés passaram a toda a força. Um d’elles levava crianças e era tirado a quatro. Era o rei que voltava de S. Carlos, com a familia. João ficou parado a seguir aquelles trens opulentos, de gente que podia perder cautelas sem levar tareias, e sem passar noites fóra de casa, com medo das cordas molhadas. Ser rei era para elle muito mais que ser Deus; e phantasiava uma existencia inaudita e phenomenal, se fosse rei. Teria camisas de chita, de quadradinhos, camisolinhas de flanella, boas botas de inverno, um relogio, cadêa com pingentes, mais cara ainda que a do visinho Mauricio—o da tenda de S. João da Praça. E dir-lhe-hiam: