—Vossa real magestade senhor rei, vossa real magestade... E elle daria a mão a beijar, com um grande annel, melhor que o do senhor Parreira, o commissario de policia do seu bairro. E ajoelhariam diante d’elle repetindo:

—Vossa real magestade, vossa real magestade...

E marcharia á frente dos esquadrões de lanceiros cheio de medalhas, uma banda, de bigodes retorcidos e tirando o chapéo armado ao povo, no meio dos hymnos das bandas marciaes. Ou então na procissão de S. Jorge, de manto e debaixo do pallio, iria descoberto, acertando o passo, com ares magestaticos. As beiras dos telhados deixavam cahir as suas lagrimas monotonas com um ruido methodico e gelado. No céo escuro e forrado por igual, nuvens brancas, como de algodão fofo, esbarravam, acossadas pela nortada. Os passeios desertos, nús de transeuntes, offereciam á claridade triste do gaz o seu esguio e pallido espinhaço, que recordava o d’um peixe antigo, dos que se fazem admirar em esqueleto, fossilisados, nos museus. Recortavam vagamente no ar os tectos negros a sua dentadura de pentes partidos; nas fachadas imbecis que os reflexos mosqueavam de um livor doentio, cortadas por filas escuras de janellas toscas, as taboletas faziam nodoas de luto, ensanguentadas por letreiros vermelhos, de modistas e de armazens de fazendas. Ao fundo da rua, n’um terceiro andar, uma parteira tinha uma lanterna rubra, d’aviso. Dois gatos seguiam ao longo das paredes, miando a sua paixão nervosa e excentrica. E por sobre a cidade os aguaceiros esfarrapavam-se lentamente na sua caminhada fatal, fazendo nos confins dos edificios afastados, longes indecisos e lugubres, linhas frias de mausoléos—um abandono de campo santo, desconsolado e fatidico. João poz-se a andar vagarosamente, cabeça baixa, as mãos remexendo o forro das algibeiras, transido do ar da madrugada. Não tinha senão um pensamento—não ir para casa. O mais que lhe importava? Mas sentia-se cançado e triste, como quem vai partir para um paiz ignorado, dos Brazis. Sentiu uma cousa dura no bolso das calças; não se lembrava do que seria. Tirou para fóra: era um vidro cheio de facetas, uma rolha de garrafa que encontrára na rua. Com a curiosidade natural de criança, applicou o olho a uma das faces e poz-se a mirar a luz d’um candieiro, através do polyedro. Experimentou deslumbramentos.

A luz multiplicava-se no seio do crystal em centos de imagens fulgentes e irisadas, vívidas n’uma saturação de amarello pallido. E o crystal dilatava-se como uma arcaria phantastica em mil sentidos oppostos, onde scintillas cruzavam as suas linhas coriscantes, com uma abundancia embriagadora. João nunca olhára cousa assim: era como um mundo de diamante e de luz, salas desertas e immensas, illuminadas como para um sarau. A sua alma como uma borboleta fascinada, ia, em lufadas de gozo, penetrar essa vasta habitação principesca e oriental, feita do que ha mais puro e mais commovente: a luz, a alegria, a gloria... Novamente appeteceu ser rei e viver n’aquelle palacio, n’um throno. Tinha fome, desde pela manhã não comia, as pernas vergavam-lhe.

Encostou-se ao umbral de uma porta, olhando sempre os seus salões magicos vestidos de tapeçarias iriantes, em que a luz incidia polvilhada em atomos de gloria. Mas a fadiga opprimia-o. Curvou os joelhos na pedra humida de chuva, absorto na luz. Os olhos carregados de chumbo, cerravam-se. Mas abria-os devagarinho, para mirar. E sem sentir, uma tranquillidade emolliente nos membros, adormeceu.

De manhã acordou, admirado de haver dormido fóra de casa e surprezo mesmo da proeza heroica, que o expunha ás cóleras do pai intractavel. Corria um arzinho cortante que esburacava a nevoa do rio e dava commoções phantasticas ás nuvens humidas do ar. Uma parte da cidade envolvia-se em grandes vapores translucidos, em que se perdiam as torres das freguezias. No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos vendilhões descalços. Começavam a passar carroças de hortaliças, para o mercado. Jumentos tristes e felpudos, de uma resignação christã, seguiam lentamente carregados de roupa. Uma leiteira forte vestida de azul, grossas botas de cano, conduzia as suas vaccas meigas e emmagrecidas, todas malhadas de branco, com velhos cobertores no dorso, e as grandes tetas pendentes e cheias, batendo as pernas. Defronte no chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados de negro, a fazer carreira; e todos sujos, aparvoados, de uma ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca. No emtanto as janellas fechadas dos predios, tinham uma passibilidade somnolenta e morna; as aguas-furtadas agudas e revestidas de telhas escarlates, recortavam acima das platibandas pardas, vagas triangulações idiotas. Nas altas varandas corridas dos quartos andares, arbustos rachiticos e estiolados pela estreiteza dos vasos e pela humidade sulphydrica da atmosphera debruçavam pelos buracos da gradaria, para a rua, tristes flôres esmaiadas, velhas corollas de uma sentimentalidade doente; pelas janellas, trepadeiras resequidas enroscavam-se em caniçados, bordando jardins suspensos de amanuenses mediocres. O dia aclarava-se no concavo da abobada. A espaços, no bocejo das vaporisações longinquas acossadas do vento, esmaltava-se o azul lavado e fino, de uma grande paz commovente. E sentia-se despertar a população. Os moços de padeiro enfarinhados e tiritando de frio, passavam com os cestos, a correr; um sino afastado dava matinas n’uma toada cheia de melancolia. João ergueu-se, com espreguiçamentos, quebrado da friagem da escada. O que se teria passado; para onde iria agora; o que seria d’elle, sósinho, por ahi?...

A verdade é que não estava para aturar o bebedo do pai: isto é que era! Com a venda dos jornaes e das cautelas sempre ganharia para comer. Podia dormir nas escadas. Ás vezes tinha venda de ganhar dois tostões; havia dias de menos tambem: era conforme calhava. E contando pelos dedos punha-se a calcular:—um pão, um pataco e chega para todo o dia; dez reis de caldo; um vintem de sardinhas; dois decilitros... ao todo gastava seu tostão. O mais era para fato e extravagancias cá da pessoa. Afinal era uma bella vida. Melhor que um padre de missa! affirmava. E seria livre, costado sem pancadaria, indo ás hortas quando tivesse na vontade—que uma pessoa não póde andar sempre no trabalho; lá chega um dia... E repetindo phrases que ouvia ao pai, para a si mesmo parecer homem, lembrava-se irritado das brutalidades do pedreiro. Bem sabia que elle era seu pai e lhe podia bater por ser mais velho; mas as suas costellas não eram nenhum folle de ferreiro. Alto lá! Era de mais, tambem! E que elle era muito bom sim senhor, mas em lhe fazendo chegar a mostarda ao nariz—está quieto! Mas sua mãi, aquella pobre mulher pallidamente martyr, tão soffredora e tão resignada, que seria d’ella, sem o filho? Como poderia a pobre creatura, de uma fragilidade triste, supportar as brutalidades do marido? E lembrava o seu perfil engelhado e secco de privações, os seus olhos amortecidos de dôres antigas e o seu peito esphacelado de tosses, concavo e velho, de que elle pendera pequenino, guloso da mama e envolto em mantilhas frescas. Quantas lancinações rasgavam, havia tantos annos, a alma d’essa obscura macilenta, d’essa trémula escrava de um canalha convicto?... E como uma chamma cantante, palpitava-lhe dentro aquelle amor honesto e cheio de castidade infantil, côr de rosa. D’uma vez estivera doente com sinapismos nas pernas, um febrão desabalado; e em delirio descobria-se no leito, cheio de agonias, vendo dançar no tecto os Populares e os garotos do seu conhecimento. E em torno da enxerga, na penumbra do quarto abafadiço, de cada vez que lhe vinham momentos lucidos, descobria o rosto anciado da mãi, batido de vigilias e escavado de lagrimas, d’uma expressão que fazia dó. Todas essas lembranças atiravam a sua pequena alma a uma tristeza em que o seu coração se sentia boiar, como n’um lago acido e corrosivo. Deixar a mãi, apparecia-lhe como um peccado funesto e impenitente, dos que fazem bailar Satanaz.—Nem os brutinhos, dizia, nem os brutinhos fazem tal. E sem resolução, ruminando a sua incoherencia estupida, com as mãos nos bolsos das calças em frangalhos, foi comprar os jornaes do dia. A luz alastrava-se pelo céo, e no oriente lavado de nuvens agora, os feixes do morno sol, riscavam nas fachadas, polyedros amarellos e emollientes, de um agasalho caridoso e bom.

N’esse dia, acabada a venda, foi a casa. Encontrou a janella fechada e a porta unida; uma grande quietidão fluctuava nos quartos. Entrou de manso: o gato dormia sobre a commoda, ao lado do oratorio; em torno quebravam-se na meia luz do recinto, fórmas hirtas de velhos moveis mutilados, cadeiras sem palhinha, mesas sem gavetas, esqueletos de bahús escancarados e vazios, com o forro em tiras. Viu a mãi cahida sobre um colchão, respirando alto. Na chaminé não havia lume, nem louça; o cesto vazio de pão, abandonava-se sobre o poial de tijolos. O João percorreu devagarinho os quartos. No saguão e sobre o peito da janella, um vaso de salsa esverdeava; mais alto, n’uma cana, uma camisa velha estava a enxugar com as mangas pendentes como n’um desalento miseravel; um chinelo humido e proscripto, sorria como um queixo sem dentes, á borda da sargeta, e tudo aquillo soluçava um desconforto triste, como a nudez d’uma tumba. O pedreiro não estava em casa—ainda bem! O João chegou-se á mãi.

—Mãi!—Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra vez, n’uma prostração desolante. Enrolava a cabeça n’um chale; um sulco negro descia-lhe da testa á face, inflammada e ardente. O labio escorria sangue, rasgado por alguma pancada. O João descobriu docemente a cabeça da pobre mulher, procurava com beijos dizer a sua pena. E em supplicas balbuciadas, de afflicção sincera, dizia que lhe perdoasse, contava as asperidões da noite anterior, as suas miserias, a perda das cautelas, entre gente indifferente e cynica, que lhe chamava vadio.

—Triste de quem é pobre, lamentava elle, triste de quem é pobre! Com as mangas da blusa limpava as lagrimas, e vibrante n’uma solicitude amoravel e leal, toda feita de grandes dedicações, inquiria a historia dos golpes que rasgavam a cara da mãi. Ella mal podia fallar. Tinha esperado pelo filho até fóra de horas: quando o pedreiro recolheu, não havia cêa—pão e agua! E entrou logo a barafustar, a dizer insolencias; que andava a trabalhar como um mouro para aquella grande bebeda, que havia de fazer um dia alguma de rachar pedras. De resto tanto se lhe dava ir para a costa d’Africa, como ficar no Limoeiro Novo; em toda a parte se ganha pão, com seiscentos diabos! Ella queria convencel-o, prestava-lhe contas da semana; pouco recebera da feria, elle bem o sabia; como era possivel tornar o pouco em muito? E esboçava roes: tanto de pão, tanto de arroz, panno para uns remendos, concerto das botas... O marido nem deu palavra; cambaleante, tocado de vinho, sahiu. Ella quiz retel-o, que se fosse deitar, que não fizesse disturbios, pelo amor de Deus, por tudo quanto tinha de mais sagrado!... Mas cortou-lhe a palavra uma bofetada crua que a derribou, com um gemido. Atravessou a rua, desceu á taberna. Das bancas gordurosas saudavam-no, como a uma pessoa intima e querida. Ella, coitadinha, chorava atraz da janella, em quanto na parede do fundo, a lamparina do oratorio, posta atraz d’uma cesta, enchia de sombra o papel desbotado, cheio de manchas escuras e fatidicas.